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VENCENDO A DEPRESSÃO, por Zenon Lotufo

Artigos e Notícias

VENCENDO A DEPRESSÃO
Publicado na revista “Luzeiro”, São Paulo, outubro de 1998.
Dr. Zenon Lotufo Jr.*
O que é depressão

Se você já se sentiu deprimido em algum momento de sua vida, saiba que não está só; uma quantidade muito grande de pessoas de todas as idades e das mais variadas situações econômicas e sociais uma vez ou outra atravessou esse vale sombrio em que nos sentimos dominados por sentimentos bastante dolorosos.

Somente quem passou pela experiência é que sabe avaliar quanto sofrimento ela provoca. Para piorar as coisas e por diversas razões, apenas uma parcela relativamente pequena dessas pessoas tem ideia do que está acontecendo e do que pode fazer para se sentir melhor.

Nestas lições, vamos examinar as causas do problema e depois indicar o que se pode fazer para preveni-lo, para vencê-lo e para ajudar suas vítimas.

Talvez a maneira mais simples de definir a depressão é dizer que se trata de um tipo de tristeza.

Mas é uma tristeza diferente do comum porque suas manifestações são mais fortes, mais duradouras, nem sempre têm uma causa definida e podem prejudicar seriamente uma porção de aspectos da vida de uma pessoa.

É bom ter em mente que existem tipos diferentes de depressão, com graus diversos de gravidade.

Assim, quem sofre de uma depressão normal se mostra abatido, tristonho, desmotivado; nada lhe dá prazer e ele até evita situações que possam lhe trazer alguma alegria.

Pode achar que nada na vida tem sentido, que Deus está muito longe e não tem o menor interesse por ele. Seus pensamentos são todos sombrios e pessimistas, cheios de desprezo por si mesmo, por aquilo que possui e por suas realizações; pode pensar em matar-se.

Tem sentimentos de culpa exagerados e, muitas vezes, sem nenhuma razão. Sente-se sem energia e sem força de vontade; tem dificuldade de se concentrar, lê muitas vezes um parágrafo e, no fim, não sabe dizer o que está escrito.

Tem a sensação de que ninguém o compreende nem o aprecia; muito facilmente se magoa e se ofende por atitudes dos outros que interpreta como críticas ou rejeição. Apesar de tudo, embora com dificuldade, a pessoa com uma depressão normal ainda consegue tocar a sua vida.

Muitas vezes, esses sintomas são relativamente suaves e crônicos, isto é, parecem fazer parte da própria personalidade.

Contudo, mesmo sendo mais fracos, atrapalham bastante a vida e, por isso, também

devem ser tratados. Neste caso, a depressão recebe o nome de distimia.

Já as depressões chamadas de unipolar e de bipolar constituem doenças graves, que atingem o organismo e necessitam de tratamento médico através de remédios específicos.

Recebem esses nomes porque na bipolar, também conhecida como psicose maníaco-depressiva, o estado de espírito alterna-se entre dois extremos: ora a pessoa está fortemente deprimida, ora se mostra animada e confiante de forma excessiva e fora da realidade.

Por sua vez, na depressão unipolar, os sintomas são mais fortes e mais incapacitantes do que no tipo normal, mas diferentemente da bipolar, não há períodos de euforia.

Em ambos os tipos, existe o risco da pessoa se matar, sobretudo quando ela começa a falar nisso.

É preciso, então, imediata busca de atendimento psiquiátrico bem como vigilância constante do doente, tirando de seu alcance tudo aquilo que possa servir para o suicídio.

Esclarecido esse ponto, vamos nos concentrar na depressão normal porque, por atingir um número bem maior de pessoas, causa maior sofrimento.

Além disso, uma vez que para ela há sempre causas psicológicas, está mais ao alcance de qualquer de nós evitá-la, vencê-la e ajudar os que dela padecem.

As causas da depressão. Antes de mais nada é preciso saber que pode haver causas físicas (às vezes em conjunto com as psicológicas) para qualquer tipo de depressão.

Uma pessoa que se mostra abatida, sem energia e desanimada, pode estar sofrendo de problemas orgânicos como, por exemplo: hipoglicemia (o açúcar do sangue, ao contrário do que ocorre na diabete, é consumido com muita rapidez); hipotireoidismo

(a glândula tireoide, que fica na garganta, funciona mal); anemia (falta de glóbulos vermelhos no sangue).

Vejamos agora, muito resumidamente, quais são as principais explicações psicológicas para a origem das depressões, tendo em mente que essas diversas explicações não são incompatíveis entre si, isto é, pessoas diferentes podem ficar deprimidas por motivos diferentes, como também vários fatores podem se juntar para causar uma depressão.

Uma dessas explicações baseia-se, em parte, na Psicanálise, criada por Freud, e é mais ou menos assim: todos nós nascemos com uma série de necessidades, dentre as quais se destaca a de afeto; precisamos de carinho, de nos sentir amados. Quando a quantidade de afeto é insatisfatória e, por algum motivo, a criança se sente rejeitada, há uma reação instintiva que a leva a ficar agressiva.

É bom que se diga que agressividade, nesse caso, é apenas uma mobilização de energia, como se houvesse uma aceleração interna, automática, que ajuda a conseguir o que se quer. Se você já viu um bebê com fome, sabe do que estou falando: ele começa choramingando baixinho e, se não é atendido, vai aumentando o volume até que fica todo vermelhinho.

À medida que a criança cresce, essa agressividade vai sendo sentida como raiva; mas é uma raiva dirigida às pessoas que ela ama: pai, mãe, irmãos, ou seja, instala-se em seu coração um conflito entre amor e ódio a que se dá o nome de ambivalência.

Então, quanto mais se desenvolve a consciência moral, a noção do que é certo e do que é errado, maior a probabilidade de aparecer o sentimento de culpa; a criança se sente culpada por desejar o mal para pessoas a quem ela, ao mesmo tempo, ama.

Com o correr do tempo, dependendo do tipo de ambiente que existe na família, esse conflito interior pode se agravar e, como provoca muita ansiedade, é “empurrado” para fora da consciência, jogado em uma espécie de porão da mente que chamam de inconsciente.

A depressão, sob este ponto de vista, seria o resultado de uma punição a si mesmo, feita através de críticas e acusações, ligada à tentativa de pagar pelo erro supostamente (ou realmente) cometido.

Por sua vez, a Logoterapia, criada pelo Dr. Viktor Frankl, psiquiatra austríaco, afirma que além das depressões causadas por problemas orgânicos ou psicológicos, existem aquelas que resultam da sensação de que a vida não tem sentido.

O ser humano, diz Frankl, é influenciado por fatores biológicos (seu corpo), psicológicos (sua mente), sociais (o ambiente humano em que vive) e também espirituais (seu espírito). Assim, ele não pode se sentir plenamente bem se não tiver consciência de que está neste mundo com uma missão, uma vez que é esta que dá sentido à sua vida.

Quando falta esse sentido, surge o que ele chama de “vazio existencial”, sensação cada vez mais comum em nossos dias em que as pessoas se preocupam muito com o que podem receber da vida, com “que vantagem eu levo com isso?”, esquecendo-se de que a natureza humana, sobretudo em sua dimensão espiritual, é de tal forma que não podemos estar satisfeitos se não nos sentimos úteis e participantes ativos de objetivos que vão além de nosso próprio ego.

Ninguém pode viver bem sem sonhos que o inspirem a se dedicar a alguma causa, a crescer, a servir, a ser melhor e a fazer deste um mundo melhor. Dito de outra forma: afastado de Cristo, o ser humano perde a consciência de sua missão, do papel especial que o Senhor lhe reservou na expansão do seu Reino.

A acomodação a um tipo de existência limitada a trabalhar, ganhar dinheiro, comer, beber, procriar, assistir TV, etc., sem nenhuma contribuição para, por pouco que seja, tornar melhor este mundo para os companheiros de jornada, é, em si, essa acomodação, uma doença.

E nós sabemos que as doenças mais nocivas são aquelas que podem ser mascaradas com medicações que tiram a dor, mas não curam, que aliviam os sintomas enquanto o organismo continua, silenciosamente, sendo destruído.

A contaminação por essa doença – uma espécie de AIDS moral – em geral começa cedo. Pode ter início, por exemplo, dentro do próprio lar, através do exemplo de pais que jamais demonstram interesse, por suas conversas e comentários, por suas atitudes diante da vida, em nada que não seja material e egoístico.

Quando revelam admiração por alguém é porque essa pessoa é “esperta”, porque tem muito dinheiro, poder e fama. Raramente ou nunca se referem á vida dos verdadeiro gigantes morais e espirituais, talvez, até, porque não os conheçam.

A carga infecciosa ganha um grande reforço dos meios de comunicação, sobretudo da TV. Com finalidades principalmente comerciais, criam-se celebridades, às vezes da noite para o dia, que não passam, em sua grande maioria, de criaturas imaturas e vazias, cuja vida pessoal está repleta de infelicidade.

Apesar de tudo, como não são muitas as pessoas conscientes de que esses ídolos têm pés de barro e que não podem servir de exemplo para ninguém, dissemina-se, principalmente entre os mais jovens, a ilusão de que são modelos que devem ser seguidos e que o sentido da vida pode estar em buscar o que eles alcançaram.

Á medida que passa o tempo e que esses caminhos se revelam becos sem saída, instala-se uma sensação de amargura e frustração, pouco restando se não, para uns, conformar-se com o destino ingrato, para outros, demonstrar sua revolta através de comportamentos destrutivos (drogas, violência, delinqüência, etc.), tudo isso sempre misturado com fases – ora curtas, ora longas – de depressão.

Ainda outra abordagem para o problema da depressão se baseia na Terapia Cognitiva (do Latim cogniti-vu = relativo ao conhecimento).

Porque ficamos deprimidos? Não é, dizem, por causa daquilo que nos acontece, mas sim, pela maneira como encaramos o que nos acontece, ou mais precisamente, em função daquilo que dizemos para nós mesmos, de como explicamos para nós mesmos o que ocorreu.

Para entender melhor, suponhamos que João e Pedro tenham sido demitidos de seus empregos nas mesmíssimas circunstâncias.

João tem uma tendência pessimista e fica dizendo para si mesmo e para quem mais se dispuser a ouvir: “Eu sou mesmo um azarado”; “Essas coisas só acontecem comigo”; “Todo mundo é injusto comigo”; “Minha vida está uma droga”; “Nunca vou conseguir outro emprego como esse”; “Deus não está nem aí comigo”.

Esses pensamentos vão produzindo sentimentos cada vez mais negativos e vão se acumulando como uma bola de neve levando João a ficar mais e mais depressivo.

Com Pedro, mais otimista, as coisas são diferentes. Pode ficar, de início, abalado e aborrecido com a situação; mas, logo em seguida, passa a dizer a si mesmo coisas mais realistas e construtivas como :

“É chato perder o emprego, mas não é nenhuma tragédia”; “Pela situação que estava a empresa, parece que não havia outro jeito, eles tinham mesmo de fazer cortes de pessoal (ou seja, isso não aconteceu, só comigo, nem porque eu seja um azarado ou um injustiçado).

“Embora a situação profissional esteja complicada ( e talvez, também, a financeira) eu tenho um Deus que me ama e tenho capacidade para encontrar outro emprego e dar a volta por cima”. Ele não fica deprimido.

Compreender como a depressão se instala em nossas mentes é um passo importante para saber lidar com ela. Na próxima lição falarei de uma última explicação que também me parece útil para essa finalidade para, depois, mostrar como evitar o problema.

Como evitar a depressão

Vimos na lição anterior algumas das possíveis causas da depressão. Antes de tratar dos meios de evitá-la, quero acrescentar uma última explicação que me parece bastante significativa. Ela se baseia na abordagem sistêmica da vida familiar, ou seja, nos estudos que vêem a família como um sistema.

De acordo com este ponto de vista, é praticamente impossível compreender o que se passa com o lado emocional de uma pessoa sem levar em conta de que tipo é sua família.

Daí o nome dessa abordagem porque, em um sistema, como é o caso do sistema nervoso ou do circulatório, tudo o que acontece com um dos elementos afeta todos os demais e o que acontece com o todo afeta cada uma de suas partes. Evidentemente, essa interferência de uns com os outros dentro de uma casa pode pender mais para o lado positivo ou mais para o negativo.

Vejamos, por exemplo, o que acontece com a família X: quem conviver de perto com eles durante algum tempo, logo perceberá que eles se desentendem por qualquer coisinha e vivem culpando uns aos outros por tudo de ruim que acontece, ou que imaginam que acontece. Eles se manipulam e se chantageiam o tempo todo usando, para isso, seus sentimentos.

Os pais se acusam continuamente um ao outro e aos filhos e estes, por sua vez estão sempre choramingando ou fazendo malcriações para conseguirem o que querem ou para serem deixados em paz.

É como estivessem a todo momento dizendo uns aos outros: “Você é responsável pelo que eu sinto, por isso, veja lá o que vai fazer. Se você fizer o que eu quero vai me deixar contente mas, se não fizer, vai me deixar triste”.

Ou então: “Pare de cobrar coisas de mim; olhe como eu estou mal por sua causa”. Parece que todo mundo na família X tem uma tendência a ficar deprimido; é que, sem o perceber, eles usam a depressão para tentar controlar o comportamento uns dos outros.

O mesmo não ocorre na família Y. Eles também se alegram e se entristecem uns com os outros mas, quando o fazem, parece que estão dizendo: “Estou alegre porque você está alegre e eu o amo” ou “Estou triste porque você está triste e eu estou do seu lado”.

As emoções são uma forma de demonstrar amor e solidariedade e não de manipular ou chantagear. Depressões são muito raras nesta casa.

De maneira às vezes surpreendente para quem não está familiarizado com as artimanhas da mente humana, algumas das melhores intenções podem estar na origem de perturbações depressivas.

Observemos, por exemplo, esta mãe que colocou, como objetivo máximo de sua vida fazer seus filhos felizes; à primeira vista, um propósito dos mais excelentes.

Mas só à primeira vista porque existe aí um engano logo de princípio: não podemos assumir a responsabilidade por algo sobre o que não temos controle e, evidentemente, ninguém tem o controle dos sentimentos dos outros, muito menos de sua felicidade.

É claro que podemos procurar dar todas as condições para que as pessoas a quem amamos sejam felizes; contudo, se por alguma razão que não dependa de nós (e, muitas vezes até quando depende), ela (conscientemente ou não) resolver ficar infeliz, há muito pouco que possamos fazer.

Ora, se alguém não percebe isso – e a maioria das pessoas não percebe, como é o caso da mãe de que falamos – pode chegar a maus resultados a partir das melhores das intenções.

Pois bem, um dos filhos dessa boa senhora chegou em casa de cara amarrada, demonstrando estar aborrecido. A garota em quem ele estava interessado começou a namorar outro rapaz. A mãe pergunta o que houve e ele responde com maus modos: “Nada; não enche!”

Se interpretarmos adequadamente o que ocorre, concluiremos que tudo se passa como se o controle do comportamento do rapaz estivesse nas mãos de uma “criança interior”; ele age como se tivesse quatro ou cinco anos de idade e seu mau-humor corresponde a uma tentativa chorosa de conseguir o que quer.

O melhor que a mãe poderia fazer, em um caso como esse, seria dizer mais ou menos o seguinte: “Olhe meu filho, gostaria que você estivesse feliz mas você deve ter suas razões para não estar. Se você quiser falar sobre o que o aborrece, estou à sua disposição; se não, só posso dizer que eu o amo e estou do seu lado.”

Mas, em vez disso, diante da aparência do filho e da resposta atravessada, ela demonstra que está triste e magoada com ele. Sua aparência transmite a seguinte mensagem: “Se você não está bem, eu também não posso estar bem. Estou chateada e triste por sua culpa.”

Percebendo, mesmo que de forma não muito consciente, o que a mãe está lhe transmitindo, ele vai ficar ainda mais aborrecido o que, por sua vez, perturbará ainda mais a mãe.

Resultado desse círculo vicioso: os dois deprimidos. E há ainda outro problema: esse rapaz vai criar o hábito de se mostrar deprimido sempre que se sentir frustrado com os acontecimentos da vida.

Aí, depois de adulto, mesmo que não haja ninguém por perto, muito menos sua mãe, ele tenderá – embora não intencionalmente – a deprimir-se porque essa é a estratégia que aprendeu para lidar com situações difíceis. Em última análise, o que ele está fazendo é agredir-se a si mesmo.

Evitando a depressão. É sempre melhor – mais fácil, menos custoso e mais sábio prevenir os problemas do que combatê-los depois que apareceram. Isso é especialmente verdadeiro no que diz respeito à saúde mental.

Examinemos, portanto, o que podemos fazer para manter nossas mentes e nossos sentimentos a salvo de transtornos emocionais como a depressão.

Um passo importante para evitar cair sob as garras da depressão é conhecer-nos a nós mesmos e como funciona nossa mente bem como as armadilhas que ela pode armar contra nós mesmos.

Se alguém achar estranho este último ponto, veja o que diz o profeta Jeremias a respeito do “coração”, levando em conta que essa palavra corresponde bem ao que hoje chamamos de “mente subconsciente”: “Enganoso é o co-ração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jer. 17:9).

Nesse sentido, além da leitura de bons livros (como, por exemplo, “Conhecer-se a si Mesmo” de Cecil Osborne, Editora Juerp) e de procurar refletir sobre o próprio comportamento, podemos fazer nossas as palavras do salmista quando pede: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos; e vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.” (Sal. 139: 23 e 24)

O livro de Cecil Osborne que mencionei e também “O Potencial Humano”, de minha autoria (Editora Martin Claret), dentre muitos outros, contêm instruções sobre como organizar e conduzir pequenos grupos de crescimento psicológico e espiritual na igreja.

Esses grupos, quando reunidos com critério e em clima de amor cristão, representem um dos melhores instrumentos disponíveis para o objetivo de conhecer-se a si mesmo.

Neles, cada participante pode servir como que de espelho para os demais, informando uns aos outros, de uma forma que não se sintam rejeitados, criticados ou ameaçados, aspectos de seu comportamento de que ele pode não estar nem um pouco consciente.

Se essa informação mútua se realizar em ambiente de confiança, pode contribuir não apenas para o autoconhecimento, mas também para importantes mudanças pessoais.

Outra medida extremamente importante é cuidar da mente. O sábio conselho do livro dos Provérbios deve ser levado muito a sério: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração porque dele procedem as saídas da vida” (Prov. 4:23).

Pois é, nós somos todos bastante influenciáveis por aquilo que penetra e acha acolhida em nossas mentes de forma que, se permitirmos que nossos pensamentos e conversas, os livros, jornais e revistas que lemos, os filmes e programas de TV que assistimos sejam de conteúdo negativo – inútil ou mesmo pernicioso – é inevitável que, mais cedo ou mais tarde, sintamos os efeitos disso.

É claro que precisamos nos manter informados do que se passa à nossa volta. Contudo, não é difícil perceber que o grosso do noticiário escrito, falado e televisivo, é constituído de notícias preocupantes, relacionadas a violências, corrupção, enaltecimento de pessoas imaturas e vazias, promoção de valores opostos aos cristãos.

Para neutralizar o efeito nocivo de todo esse lixo, é necessário buscar contato diário e constante com ideias e mensagens saudáveis, alegres e construtivas além, evidentemente, dos momentos de silêncio, oração e meditação.

Aqui, novamente, as leituras constituem recurso dos mais valiosos. Felizmente, para esse fim, podemos contar, além da Bíblia, com apreciável número de livros e revistas de conteúdo bastante bom.

Particularmente, tenho usado e recomendado bastante os livros do Dr. Norman Vincent Peale, pastor norte-americano falecido há poucos anos, dos quais os mais conhecido são “O Poder do Pensamento Positivo”, “O Valor do Pensamento Positivo” e “Mensagens para a Vida Diária”, publicados pela Editora Cultrix, bem como “Um Tesouro de Alegria e de Entusiasmo”, publicado pela Editora Record.

Acho que um aspecto muitíssimo importante tem sido atualmente deixado em segundo plano. São os ensinamentos de Jesus, sobretudo as bem-aventuranças e algumas das parábolas.

Seu estudo cuidadoso revela lições de valor inestimável para a saúde mental; são um guia de sobrevivência psicológica e espiritual dentro de um mundo que adota valores e práticas por demais prejudiciais ao bem estar emocional.

Ora, se há alguma coisa que caracterize a nossa época é o individualismo do tipo “cada um por si, Deus por todos” levando cada um a estar em contínua competição com os demais.

Nessas condições, se só nos sentimos respeitados e aceitos por qualidades que nos permitam vencer ao nos compararmos com os demais – esperteza, disposição para brigar, força física, competência, mandonismo – podemos nos sentir “por baixo”, inferiores e com tendência à depressão, se elas nos faltarem.

O problema é que essas “virtudes competitivas” produzem infelicidade seja para quem gostaria de tê-las e não as tem, seja para quem as possui.

Influenciadas por essas ideias próprias de um mundo obcecado pelo poder e pela competição, as pessoas, mesmo cristãos sinceros, se esquecem muito facilmente que as palavras do Mestre contrariam tudo isso e constituem as chaves da verdadeira felicidade.

Ele nos convida a ser “mansos e humildes” (Mat. 5:5 e 11:29), a procurar as “virtudes cooperativas”, descritas pelo apóstolo Paulo como o fruto do Espírito (Gal. 5:22 e 23).

Evidentemente, Jesus não nos recomenda que sejamos subservientes e despersonalizados, mas que busquemos aprender com ele o significado da “paz que excede todo o entendimento”, uma proteção inigualável contra os ataques da depressão.

Como vencer a depressão

Ajuda médica. Mencionei em lição anterior certos tipos de depressão, mais graves, que necessitam de assistência médica psiquiátrica. Precisamos, nesse caso, ter cuidado com idéias preconceituosas que circulam entre pessoas mal informadas e que as levam a afirmar que:

a) “Jesus resolve todos os problemas”

e b) “psiquiatra é coisa só para loucos”.

O que podemos responder a isso? É claro que Jesus pode suprir todas as nossas necessidades mas, geralmente, ele o faz através das pessoas e de recursos naturais.

Se alguém tem uma crise de apendicite, a não ser que seja um adepto da Ciência Cristã (movimento religioso, forte nos Estados Unidos, que ensina que o crente só deve se curar com orações), vai procurar um hospital e submete-se à cirurgia.

Por que há de ser diferente quando se trata de uma doença emocional como é o caso da depressão grave? Quanto ao segundo ponto, há muito que os médicos psiquiatras deixaram de tratar apenas dos transtornos psicóticos, ou seja, da loucura propriamente dita.

Eles hoje, em sua maioria, estão preparados para tratar de uma grande quantidade de problemas que podem prejudicar bastante a vida de pessoas inteiramente normais nos demais aspectos.

O tratamento médico, por sua vez, não deve excluir os recursos espirituais e a assistência pastoral; a conjugação de todos esses meios só trará benefícios para o doente.

Psicoterapia. Ë o nome que se dá ao tratamento por meios psicológicos e normalmente é feita por médicos e psicólogos que receberam treinamento especializado. Pode ser feita em conjunto com o atendimento psiquiátrico ou não.

Existe uma variedade muito grande de linhas psicoterápicas, com diferentes graus de eficácia no tratamento da depressão. Estudos recentes demonstram que a Terapia Cognitiva, a que já me referi em lição anterior é o método que melhores resultados tem alcançado.

Deve-se buscar psicoterapia sempre que a depressão persistir por mais do que alguns dias e/ou reaparecer com frequência.

Para aquelas pessoas que se sentem mais à vontade sob os cuidados de terapeutas cristãos, vale a pena mencionar que há muitos deles em nosso meio, em sua maioria associados ao Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos.

Aconselhamento. Diferente da psicoterapia por ser mais breve e, em geral, mais superficial, pode, no entanto ser bastante útil em casos mais leves de depressão.

É cada vez mais comum que os pastores e outros membros da comunidade recebam treinamento para exercer esse ministério.

Autoajuda. A participação da própria pessoa deprimida, ajudando-se a si mesma, é sempre um fator dos mais importantes na recuperação. Ela vai melhorar mais rapidamente seja quando está tomando medicamentos, seja quando faz psicoterapia ou aconselhamento.

Aliás, na terapia cognitiva é fundamental que o cliente faça tarefas de casa, que aprenda a usar certos métodos que, mesmo depois de curado, poderá utilizar por toda a vida.

Eis algumas coisas que você pode fazer para se ajudar quando estiver deprimido: Converse consigo mesmo e pare de se agredir. Já vimos que a depressão é causada, com muita frequência, por pensamentos negativos, ou seja, por conversas interiores em que predominam palavras tristes e ideias sombrias.

Pensamentos desse tipo constituem formas de autoagressão e são como já mencionei, tentativas daquela criança que já fomos e que continua, de certa maneira, viva e ativa em nosso interior, de comunicar alguma coisa a alguém.

Essas mensagens foram aprendidas no ambiente familiar e podem ser de três tipos: “Me dê alguma coisa”; “Me deixe em paz” ou “Veja o que você fez comigo”. Evidente-mente, o lado racional de sua mente não quer agir contra você mesmo nem deixar que seus sentimentos sejam como que controlados pelos outros.

Mas a tal criança interna só conhece esse caminho para resolver os problemas e, quando a situação se complica, ela acaba assumindo o controle.

Conscientizar-se desses dois pontos: de que você pode estar apenas reagindo à opinião dos outros e que, por causa dos outros está se agredindo, é um fator importante para você vencer a depressão, principalmente quando ela está começando.

Os dizeres abaixo, que podem ser copiados e mantidos sempre à mão, costumam ser úteis para essa conscientização.
O que você está pensando, sentindo ou fazendo agora joga a seu favor ou contra? Se joga contra você, é você mesmo que quer pensar, sentir ou agir assim, ou está gerando isso em função da opinião dos outros?

Você quer mesmo que a sua vida seja dirigida por outros? Se não quer, lembre-se de que, em Deus, você pode se manter tranquilo, bem humorado e contente a partir de agora, sendo você mesmo e pensando com clareza.

Mensagens estimulantes. É bastante difícil tirar os pensamentos negativos da cabeça; atacá-los de frente pode torná-los ainda mais fortes.

Mas você pode usar um recurso bem melhor que é substituir as ideias negativas por outras positivas. Esse método simples e prático tem funcionado bem para muitas pessoas.

Pegue, por exemplo, passagens estimulantes da Bíblia, escrevam-nas em cartões e levem-nas em seu bolso ou bolsa, coloque-as em lugares bem visíveis, decore-as, repita-as para si mesmo centenas de vezes durante o dia fazendo com que elas impregnem suas mente.

Mais cedo do que você imagina, elas modificarão o tom costumeiro de seus pensamentos tornando-os mais positivos e alegres. Aqui vão exemplos:
Não te faças nenhum mal. Atos 16:28

Esse conselho foi dado pelo Apóstolo Paulo ao carcereiro sob cuja guarda se encontrava em Filipos. (O homem estava em vias de se matar porque acreditava que seus prisioneiros haviam fugido após um terremoto.)

A recomendação vale para todos nós que vivemos nos prejudicando a todo o momento, quer disso tenhamos consciência, quer não. “Basta a cada dia o seu próprio mal” disse o Mestre (Mat. 6:34) mostrando ser desnecessário e insensato acrescentar aos problemas inevitáveis da existência sofrimentos causados por ansiedades e ressentimentos que em nada nos beneficiam e que são, em última análise, auto- agressões.

A repetição deste versículo será útil para reprogramar sua mente, libertando-o da triste, comum e despercebida tendência de maltratar a si mesmo. Todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus. Rom. 8: 28. Essa é uma das afirmações mais extraordinárias da Bíblia.

Observe, de início, esta surpreendente revelação: nem suas derrotas, nem suas fraquezas, nem suas dúvidas, nem seus erros, nem os erros e injustiças que os outros cometem contra você, enfim, nada, absolutamente nada, pode deixar de contribuir para o seu bem.

Há apenas uma condição para que isso ocorra: que você tenha consciência de que Deus o ama e que é, portanto, o maior interessado em que as coisas dêem certo em sua vida – pois esse é o verdadeiro significado da expressão “aqueles que amam a Deus”; nosso amor por Ele é apenas um reflexo do Seu amor eterno e incondicional por nós.

Nos momentos de frustração e desânimo, quando tudo parece estar dando errado e não restam saídas, dê esse passo de fé afirmando repetidas vezes a poderosa mensagem contida nessa passagem. Você jamais ficará decepcionado.

A técnica da contestação. Habitue-se a escrever todos os pensamentos que passam pela sua cabeça nos momentos de frustração; em seguida, procure analisá-los racionalmente e dar respostas a eles. Eis alguns exemplos:

Pensamento negativo: Fui mal na prova de matemática. Não dou para isso mesmo; nunca vou aprender esta matéria.

Contestação: Dizer uma coisa dessas para mim mesmo só serve para me prejudicar. O fato de ter ido mal nesta prova e em outras não quer dizer que eu seja incapaz de me sair bem em matemática. É mais provável que minha dificuldade vem de eu não ter alguns conhecimentos básicos. Posso adquirir esses conhecimentos estudando por conta própria ou posso pedir para algum colega ou professor que me ajude. E eu “posso todas as coisas naquele que me fortalece”.

Pensamento negativo: Ninguém me convidou para sair neste fim de semana; ninguém gosta de mim.

Contestação. Essa é uma conclusão muito exagerada; é claro que há pessoas que gostam de mim. Podem ter me telefonado quando não tinha ninguém em casa. Eu também poderia ter tomado a iniciativa de telefonar para alguém. De qualquer forma, talvez seja bom ler algum livro ou fazer algum curso que me ajude a me desinibir e a me relacionar melhor com os outros.

Boas leituras. Elas servem tanto para prevenir quanto para curar momentos depressivos. Vale a pena ter sempre à mão livros e revistas de conteúdo edificante e motivador.

Mesmo que seja difícil nos concentrar na leitura quando estamos deprimidos, o pouco que consigamos absorver pode reverter a tendência dos nossos pensamentos, tornando-os mais otimistas e ajudando a que nos sintamos melhor. Sobre isso, vale a pena ler “Autoajuda contra a depressão” (disponível em case=2&idnot=17516 ) e “O remédio é ler” na Folha de S. Paulo de 19.02.13, contendo referências a estudos científicos que comprovam a eficácia das boas leituras na melhoria bem estar mental.

Como ajudar uma pessoa deprimida. Familiares e amigos sentem-se, comumente, bastante perturbados quando têm de lidar com pessoas deprimidas.

Obter conhecimentos sobre como lidar com elas é muito importante, seja para evitar agravar o problema, seja para ajudar na recuperação, seja para não deixarem que suas próprias vidas sejam afetadas em demasia.

Precauções a tomar em casos graves. Vamos começar repetindo o que já disse sobre casos de depressão unipolar, ou bipolar. Constituem doença que precisa ser tratada com medicamentos.

Diante de pessoas que se mostram forte e demoradamente deprimidas, bem como das que passam por fases em que estão, ora excessivamente animadas, ora muito abatidas, a medida a tomar é pressioná-las para que consultem um médico psiquiatra.

Já mencionei também que, quando ela fala em matar-se, é preciso vigiá-la e tirar do seu alcance tudo aquilo com que possa se ferir.

Encaminhamento à ajuda profissional. Mesmo em casos menos graves, é importante incentivar o parente ou amigo deprimido a buscar ajuda profissional que, como já vimos, pode ser de um psicoterapeuta (médico ou psicólogo) ou do pastor, se ele recebeu treinamento para isso.

O que evitar.

Não dê conselhos e não a exorte a reagir ou a ter mais fé. Infelizmente, muitas das medidas com que se tenta auxiliar o indivíduo deprimido, contribuem para piorar as coisas. Podem ser tomadas com muito boa vontade e, no entanto, se se baseiam em ideias erradas a respeito do problema, causam prejuízos.

O seguinte aspecto precisa ser considerado: uma das coisas que mais agrava a situação das pessoas deprimidas é pressioná-las para que reajam, para que tenham mais fé, como se ela estivesse nesse estado por culpa dela mesma e pudesse se recuperar pela simples força de vontade.

É uma atitude que só pode trazer maus resultados porque, em primeiro lugar, é comum que a pessoa deprimida esteja nesse estado exatamente por se sentir culpada por razões reais ou imaginárias; em segundo lugar, uma das características da depressão é a sensação de completa falta de energia e de capacidade para reagir.

Contudo, isso que acabo de dizer parece conflitar com o que escrevi antes sobre ser a depressão uma tentativa de nossa “criança interior” de comunicar alguma coisa a alguém, de ser um pedido ou de socorro, ou de que nos deixem em paz, ou uma tentativa de demonstrar o quanto nos magoaram.

Se é assim, então a própria pessoa é responsável pelo mal-estar que está sentindo e precisa parar com isso para melhorar. Como sair desse impasse?

Na verdade, não há contradição entre as duas posições. Para entender a questão, é preciso ter em mente que ninguém pode ser responsável por aquilo sobre o que não tem controle.

Logo, ninguém pode ser responsabilizado por algo que se passa em seu interior, mas que ele jamais aprendeu a controlar. Por outro lado, a insistência de que ele é simplesmente uma vítima de forças que estão além do seu alcance, pode privá-lo da oportunidade de aprender a exercer maior controle sobre sua própria vida.

Mais ainda, a ênfase de que os problemas emocionais são tão somente doenças de que as pessoas são vítimas mais ou menos indefesas, se, de um lado pode protegê-las das pressões e acusações indevidas, contribui, por outro lado, para incentivar a tendência – já bastante grande em nossa época, de atribuir sempre nossos erros a causas que estão além de nossas forças.

Uma analogia pode ajudar a compreender melhor o ponto: suponha que estamos diante de alguém que está se afogando; as seguintes afirmações são igualmente verdadeiras nesse contexto:

a) ele precisa ser imediatamente socorrido;

b) é insensato e cruel culpá-lo pelo que está acontecendo e exortá-lo para que nade;
c) se, no futuro, ele aprender a nadar poderá evitar afogar-se;

d) convém ensinar o maior número possível de pessoas a nadar.

Em suma, é importante para você e para os demais aprender a controlar suas atitudes e seu comportamento; isso lhe dará mais liberdade e lhe permitirá viver melhor. Ao mesmo tempo, é inútil e prejudicial pressionar alguém para que se controle ou criticá-lo porque não o faz, se ele nunca aprendeu a fazê-lo.

Demonstre simpatia, mas não pena. Outra atitude que prejudica a pessoa deprimida é tratá-la como “uma coitada”. É claro que ela pode precisar de companhia, de carinho e de demonstrações de interesse; e é importante atendê- la nisso.

Porém, apesar dela às vezes dar a impressão de que está pedindo compaixão, demonstrar pena contribuirá para diminuir sua autoestima (que, geralmente, já está baixa).

É bom lembrar que simpatia (que quer dizer, literalmente, “sentir junto”) é a capacidade de se colocar na pele do outro, de se identificar com ele e com seus sentimentos.

O que fazer

Busque informações. As informações sobre a depressão a que me referi acima podem ser buscadas junto a um médico ou psicólogo, como também através de leituras.

Várias clínicas, dispões de folhetos que resumem o que é preciso saber sobre o problema; alguns deles são especificamente para os familiares. Quanto aos livros, existem muitos sobre o tema escritos por especialistas e dirigidos a leitores leigos. Três deles merecem ser mencionados:

“As máscaras da melancolia” de John White, Edit. ABU;

“Vença e a depressão”, de John Preston, Edit. Record e

“Vencendo a depressão” de Paul Hauck, Edit. Nobel.

Disponha-se a ouvir com simpatia, paciência e amor. Qualquer pessoa precisa ser ouvida e se sentir aceita, e isso pode ser especialmente verdadeiro quando ela está deprimida.

Esteja presente ao lado da pessoa que sofre e mostre que está pronto para ouvir se ela quiser falar, mas nunca insista para que fale. Em seu livro “O valor do pensamento positivo” relata o Dr. Norman Vincent Peale um episódio que me parece muito ilustrativo sobre esse ponto: trata-se do caso de um homem que perdeu seu único filho afogado em um trágico acidente.

Certa noite, não muito tempo depois do acontecido, muito deprimido e angustiado por sentimentos de culpa, esse pai andava sem direção pelas ruas de sua cidade quando, ao ver que as luzes da redação do jornal local estavam acesas, sentiu um impulso para entrar.

O redator era seu amigo e, ao ver aquela figura ferida por intensa dor, falou-lhe com atitude acolhedora:

“- Bill, sente-se aqui perto e descanse um pouco. O infeliz pai sentou-se, depois se inclinou para a frente, absorto em silencioso desespero. E, então, o jornalista fez uma coisa interessante.

Em vez de preocupar-se em encher o vazio com uma conversa qualquer, voltou ao trabalho, muito simplesmente.

Não ficou perturbado pelo silêncio do outro. Depois de algum tempo, indagou: – Bill, quer uma xícara de café? Serviu a Bill um café quentinho e disse-lhe: Beba, meu velho. O calor vai fazer-lhe bem. Sorveram o café, aos goles. Não houve conversa nenhuma.

Depois de mais alguns minutos, o vizinho confessou: Jack, ainda não consigo falar. Tudo bem. Pois fique aí sentado quanto tempo quiser. Continuarei trabalhando.

Mais tarde, Bill disse: Agora já posso falar. E, então, durante uma hora inteira, desabafou-se enquanto Jack o ouvia sem uma palavra. Bill narrou a tragédia com os mínimos e meticulosos detalhes o que tinha acontecido, o que teria acontecido se ele tivesse feito isto, o que não teria acontecido se ele tivesse feito aquilo, culpando-se sempre por tudo.

Ficou falando, falando, até que, quase às três horas da madrugada, se calou, finalmente concluindo: É tudo o que eu queria dizer esta noite.

O jornalista veio até ele, pôs-lhe o braço ao ombro e disse: Vá para casa, Bill, e veja se consegue dormir.

Posso voltar outra vez para conversar? A qualquer hora. Venha sempre que tiver vontade, de dia ou de noite. Deus o proteja.

Foi só o que o jornalista falou. Limitou-se a escutar, bem quieto, com toda a simpatia e com o coração cheio de amor.

Procure convencê-la a que não tome decisões importantes. Em decorrência da própria depressão, uma pessoa pode ver as coisas de forma tão negativa que se vê levada a tomar decisões totalmente precipitadas e inadequadas como largar um emprego, desfazer um casamento, vender seus bens ou realizar qualquer outra mudança que pode prejudicá-la bastante.

O mais importante: manter-se sereno. Como vimos ao falar da família como um sistema, os problemas emocionais são frequentemente realimentados, reforçados, pelos próprios familiares, sem que eles disso se apercebam.

Assim, quando nos mostramos impacientes, irritados, excessivamente preocupados e angustiados, por causa do sofrimento de uma pessoa a quem amamos, estamos contribuindo para que ela piore, na medida em que nosso mal-estar envolve uma mensagem do tipo “estou assim por sua causa”.

Se você se conscientizar de que sua “criança interior” está tentando transmitir aquela mensagem (porque é o que ela sabe fazer para lidar com situações desse tipo) será mais fácil manter-se equilibrado.

Veja bem, não estou dizendo que deva sentir-se feliz, mesmo porque não é o caso quando alguém que você ama está sofrendo; digo, isto sim, que quanto menos você se deixar perturbar pelo estado emocional do outro, maior será sua contribuição para que ele também se sinta melhor.

Você pode demonstrar que compreende o sofrimento dele, que está do seu lado, que tem todo o interesse por ele e por seus sentimentos sem que, para isso, você precise se agredir.

Embora pareça estranho ver as coisas por esse lado, a realidade é que a maior parte do seu mal-estar não vem do fato de que está vendo uma a pessoa querida sofrendo, mas sim, de uma auto-agressão que representa uma tentativa da “criança interior” de resolver a situação.

Uma forma de alcançar esse objetivo de permanecer sereno é imaginar que está dizendo ao outro algo mais ou menos assim: “Eu o amo e tenho todo o interesse em que você se sinta bem. Mas não vou me agredir para forçar você a ficar melhor. Eu sei que, ficando mal, só contribuirei para que você fique pior.”

* O Rev. Dr. Zenon Lotufo Jr. é ministro jubilado da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, psicoterapeuta e doutor em Psicologia da Religião pela PUC-SP. Atende à Rua Abegoaria, 63 – São Paulo – SP

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