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UMA TEORIA TEOLÓGICA DAS EMOÇÕES: APLICAÇÕES EM PSICOTERAPIAS, por Francisco e Zenon Lotufo

Artigos e Notícias

UMA TEORIA TELEOLÓGICA DAS EMOÇÕES: APLICAÇÕES EM PSICOTERAPIA
Zenon Lotufo Jr.1
Francisco Lotufo Neto2

Revista de Psiquiatria Clínica do Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo
Volume 28 – No 6 – 2001

Resumo
Os Autores propõem um paradigma de base teleológica na abordagem das perturbações emocionais, colocando em relevo o papel manipulativo de grande parte das emoções humanas. Focalizando a origem dessas estratégias manipulativas no contexto familial, enfatizam a importância de desenvolver o senso de responsabilidade e de controle no paciente bem como sugerem que crenças como as que se seguem desempenham papel decisivo na gênese das perturbações emocionais: “Os sentimentos negativos ‘vêm de fora’; são causados pelas outras pessoas e pelos acontecimentos.” “Os outros são responsáveis pelo que eu sinto e eu sou responsável pelo que eles sentem.” “Só poderei manter alguém ao meu lado se conseguir induzir nele certos sentimentos.” Esboçam, finalmente, um método terapêutico de linha cognitiva que faz uso dos conceitos acima.

Unitermos
Emoções. Comunicação. Psicoterapia. Terapia. Cognitiva. Manipulação. Responsabilidade. Sistêmica.

Abstract
A teleological theory of emotion aplied to psychoterapy.

The Authors propose a paradigm on teleological basis in the approach of emotional disturbances, putting in evidence the manipulative role of large amount of human emotions. Bringing into focus the origin of such manipulative strategies in the familial context, they emphasize the importance of developing in the patient the sense of responsibility and of control as well as suggesting that such beliefs as those following play a decisive role in the genesis of emotional disturbances: “Negative feelings come from outside and are caused by other people and by circumstances.” “Others are responsible by what I feel, and I am responsible by what they feel.” “Unless I am able of inducing some kind of feelings in people, I will be not able to maintain them with me.” They finally presents a draft of a cognitive therapeutic method that uses the above concepts.

Key-words:
Emotions. Communication. Psychotherapy. Therapy. Cognitive. Manipulation. Responsibility. Systemic.

Explicações causais e teleológicas

Generalizando bastante, ao procurar explicar um comportamento, podemos , por um lado, alinhar fatores que constituiriam a causa da conduta, como se respondêssemos a um por que? ou, por outro lado referir-nos a finalidades, funções ou intenções. Neste caso, estaremos respondendo a um para que? Chamamos a estas de explicações teleológicas, do grego télos que significa finalidade, objetivo (Hegemberg, 1969, Braithwaite, 1965).

As explicações causais, no que se refere a transtornos de comportamento, têm recebido preferência na medida em que: 1) evitam que se inculpe o indivíduo (o que é desejável); 2) favorecem a priorização e, às vezes, a exclusividade de intervenções menos eficazes mas economicamente lucrativas ( o que é contestável) ( Monteleone, 2000).

Abordagens causais e teleológicas não se excluem mutuamente, ou seja, podem ser igualmente verdadeiras. Acreditamos, contudo, como procuraremos demonstrar, que, do ponto de vista de facilitar mudanças comportamentais, a perspectiva teleológica oferece vantagens não desprezíveis.

1Filosofo, Pós-graduado em Ciências Sociais e Analista Transacional.
2Médico psiquiatra e Professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.

Endereço para correspondência:

Zenon Lotufo Jr.

Av. Faria Lima, 2121, conj. 72 – CEP 01452-001 – S. Paulo – SP

Fone: (11) 3812-3711; (11) 3812-3921E-mail: zenonjr@uol.com.br

Explicações teleológicas das emoções

Quem primeiro chamou a atenção para a finalidade das emoções foi Charles Darwin, em um livro menos conhecido, publicado em 1872, e só recentemente traduzido para o Português: “A Expressão das Emoções nos Homens e nos Animais”. Coerente com sua teoria, postulou
que cada uma das emoções tem papel definido na sobrevivência ou no bem-estar do indivíduo ou da espécie. Indo mais além, Darwin procurou mostrar que a expressão das emoções também tem uma utilidade bem clara para os animais. Diz ele “… cada movimento de expressão parece ter tido alguma origem natural e independente, mas, uma vez adquiridos, tais movimentos podem ser empregados voluntária e conscientemente como meio de comunicação. Mesmo crianças, se são atendidas cuidadosamente, descobrem em uma idade muito precoce que seus gritos trazem alívio e logo passam a utilizá-los voluntariamente (Darwin, 1872/2000).

Ele cita como exemplo dessa utilidade as expressões ligadas à ferocidade – mostrar os dentes, emitir gritos ou rosnados. Elas tinham inicialmente o caráter de preparação para o combate; mas, com frequência, a simples exibição desses sinais acabava por intimidar e por em fuga o adversário, uma vantagem significativa. Tornam-se, então, habituais e, com o tempo, hereditárias.

O principal proponente atual de uma teoria das emoções de inspiração darwiniana é Robert Plutchik, professor de psiquiatria e psicologia no Albert Einstein College of Medicine de Nova York. Em seu livro ‘Emotion: a Psychoevolutionary Synthesis” postula que cada emoção é uma sequência comportamental, tendo cada uma determinada função baseada em sua história evolucionária (Plutchik, 1980a). Em apoio a sua tese, Plutchik cita observações como as do psicólogo Donald Hebb que, trabalhando com chimpanzés, no Yerkes Regional Primate Center em Atlanta, Geórgia, registra: “A característica peculiar do acesso de birra é a inclusão de tentativas de evidente auto-agressão: a criança retém a respiração, puxa seus cabelos, joga-se contra a parede, enquanto observa para ver que efeito isso causa no adulto que está negando o que ela quer. Há um elemento proposital que também é evidente no pequeno chimpanzé de um ano de idade que lança olhares sub-reptícios para sua mãe entre seus ataques de sufocação mortal ou de golpear o chão com a cabeça.” (Plutchik, 1980b) (grifos nossos).

Importante função das emoções: comunicar

Como se pode ver, uma das principais funções das emoções é a de comunicar. Essa função é reconhecida por número apreciável de autores, dentre os quais vale mencionar Saul (1956), Asch (1966), Klineberg (1967), Beier e Valens (1976), Szas (1979), Axline (1980), Wlatlavsky, Bevin e Jackson (1981), Hillman (1991), Groddeck (1991), Harris (1996), Hinton (1999), Planalp (1999), Turner (2000).

Um dos estudos mais interessantes sobre reações emocionais como forma de comunicação foi realizada no Suffolk Child Development Center, em Long Island, Nova York, pelos psicólogos Edward Carr e Mark Durand. Trabalhando com crianças autistas e mentalmente retardadas, chamaram-lhes a atenção certos comportamentos exibidos pelas crianças; uma batia repetidamente com a cabeça na quina de uma mesa, outra agredia violentamente seu professor, uma terceira (cujos exames médicos não indicavam nenhuma razão para isso) coçava-se de tal maneira que produzia ferimentos graves. Suas conclusões: “Nossa pesquisa convenceu-nos de que esses graves problemas de comportamento são freqüentemente, não atos sem sentido, mas tentativas primitivas de se comunicar. De fato, a agressão aos outros ou a si mesmas, os ataques de birra, são nas mais das vezes, os únicos meios eficientes que a criança tem de expressar suas necessidades.” (Carr e Durand, 1987)

Carr e Duran mencionam os trabalhos das psicólogas Sílvia Bell e Mary Ainsworth – que relacionam o choro dos bebês à comunicação, demonstrando que, quanto mais a criança pequena consegue se comunicar através de expressões faciais, gestos e fala, menos ela chora – e o de Ivar Lovaas, psicólogo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que sugere ser freqüentemente o comportamento autodestrutivo de certas crianças esquizofrênicas uma tentativa de pedir algo de que todas as crianças precisam, ou seja, atenção. E prosseguem: “Embora a maioria das crianças que estudamos sejam autistas ou retardadas, seus problemas de comportamento também parecem ser meios de comunicar-se. Descobrimos que essas crianças são mais propensas a ser agressivas ou a ferirem-se a si mesmas quando buscam atenção dos adultos ou tentam evitar situações desagradáveis. Seu comportamento estranho é uma forma de dizer ‘Por favor, preste atenção em mim’ ou ‘Por favor, não me peça para fazer isso’ “.

Aspecto relevante das descobertas de Carr e Durand é que, quando se ensinam às crianças meios normais de atenderem suas necessidades, elas podem desistir de seu comportamento anormal; quando se treinam as crianças a expressarem – falando ou através de gestos – o que estão querendo, os comportamentos extravagantes são drasticamente reduzidos.
Discriminando: emoções espontâneas e manipulativas

Contribuição importante de Eric Berne (Berne, 1964; English, 1971) , a nosso ver imprescindível para a compreensão do comportamento humano, é a distinção de dois tipos de emoção: a) as espontâneas, que compartilhamos como todas as outras pessoas e, em grande medida, com os mamíferos superiores e b) as manipulativas, aprendidas em um contexto social e geradas com a finalidade básica de comunicar e controlar outras pessoas. As primeiras têm como característica durarem apenas enquanto dura aquilo que as causa; as outras, privativas da espécie humana, podem durar indefinidamente porque não permitimos que “esfriem” e desapareçam. (Do ponto de vista que nos interessa, as emoções causadas por informação falsa ou interpretação equivocada da realidade, são, para todos os efeitos, espontâneas.)

O ser humano, diferentemente dos outros animais, tem uma capacidade, que pode ter-nos sido vantajosa em outras eras e situações, de carregar consigo as emoções. Nós o fazemos através de um processo de realimentá-las mentalmente por meio de imagens mentais e de diálogos internos.

Além do mais, à medida que cultivamos artificialmente as emoções, elas podem ir ganhando corpo até gerar comportamentos totalmente inadequados.

Eis, em resumo, as diferenças:

Emoções Espontâneas

– duram enquanto dura o estímulo

– são proporcionais qualitativa e quantitativamente ao estímulo

– são importantes para nossa sobrevivência individual e coletiva

Emoções Manipulativas

– são alimentadas pela própria pessoa

– podem durar indefinidamente

– são desproporcionais ao estímulo

– são utilizadas para manipular os outros

– são responsáveis pela maior parte do sofrimento humano

Levando em conta a distinção, podemos também dizer que há dois tipos de sofrimento psíquico: os causados por emoções espontâneas e os gerados por nós mesmos através de emoções manipulativas. Os do segundo tipo resultam de auto-agressões e constituem substancial porção do sofrimento humano.
Visão sistêmica das E.M.

O ambiente familiar desempenha papel de relevância na formação de nossa personalidade, de nossos hábitos mentais e, portanto, na qualidade que terá nossa vida, nos rumos que tomará nosso destino.

Compreender a nós mesmos e nossas reações emocionais implica compreender a maneira pela qual aprendemos com nossos familiares a utilizar as emoções.

Desde a década de 50, com estudos como os do Dr. Murray Bowen, então professor de psiquiatria no Centro Médico da Universidade Georgetown, em Washington, grande quantidade de dados vem se acumulando a respeito de como o clima da família influencia o desenvolvimento emocional e afetivo de seus membros. Embora a maior parte dessas pesquisas focalize, de forma especial, a origem da esquizofrenia, é cada vez mais evidente que as observações se aplicam, mutatis mutandis, a todas as famílias.

Provavelmente o resultado mais importante desses estudos foi uma nova maneira de se encarar o comportamento humano e suas perturbações. Os problemas individuais passaram a ser vistos como parte de um processo que envolve todos os membros da família. A abordagem sistêmica como foi chamada, ampliando o foco para abranger os demais familiares do paciente, permitiu descobrir um novo sentido nas atitudes deste. Daí, surgiram novas estratégias de psicoterapia que envolvem o grupo familiar como um todo e não apenas um de seus integrantes. Como decorrência dos bons resultados, essa é uma das áreas da psicologia que mais se desenvolveu nos últimos anos (Selvini Palazzoli, Boscolo e Prete, 1970; Kerr, 1988, Elkaím, 1990,)

Por outro lado, a terapia familiar esbarra em uma limitação óbvia que é a dificuldade de reunir todos os membros de uma família para um trabalho dessa natureza. Além das resistências pessoais, não raro os familiares residem em locais distantes, ou mesmo, já faleceram.

Parece oportuno, portanto, não limitar a utilização de todo esse conhecimento à terapia familiar ou de casal; ele pode ser de bastante valia no tratamento de problemas individuais, mesmo quando o restante da família, por alguma razão, não pode ser reunido. A abordagem familiar permite compreender como se adquirem hábitos emocionais no seio da família e como esses hábitos prejudicam o indivíduo e aqueles com quem convive.

Diferentes Tipos de Ambiente Familiar

Para nossas finalidades – e levando em conta os dois tipos de emoções – vamos classificar os ambientes familiares em dois grandes grupos, sempre tendo em mente que dificilmente encontraremos famílias de tipo “puro”. Estamos, na verdade, falando de dois extremos de um contínuo em que cada família se situa mais para um lado ou para o outro. Ocorrem, aliás, variações de posição no decurso do tempo e à medida que circunstâncias internas e externas fazem sentir sua influência. Temos assim:

– famílias enredadas por emoções artificiais (Tipo X)

– famílias unidas por emoções espontâneas (Tipo Y)

Uma família Tipo X se caracteriza pela presença dominante da

Falsa Crença – “Você é responsável pelo que eu sinto e eu sou responsável pelo que você sente”.

Feita a ressalva de que é de sentimentos manipulativos que estamos falando, temos aí a crença de cujo material são feitos os fios da rede que interliga e prende uns aos outros os membros da família. Está montada, aliás, sobre um dispositivo que dispara automaticamente, provocando culpa e ansiedade, assim que a menor sombra de dúvida paire sobre ela.

Convém frisar mais uma vez: não somos responsáveis por sentimentos manipulativos das outras pessoas; eles são, em sua essência, instrumentos de manipulação. Contudo, podemos ser responsáveis por sentimentos espontâneos. Este tópico é delicado e precisa ser bem entendido porque qualquer tipo de vida comunitária requer que seus integrantes assumam certo grau de responsabilidade uns pelos outros. Isso é verdade quer nos refiramos à família, à igreja, à empresa, à cidade, à nação ou, até mesmo, à humanidade como um todo. Assumir responsabilidade, porém, não significa sentir-se culpado. Podemos achar que não temos nenhuma culpa por haver ao nosso redor crianças desamparadas, perambulando pelas ruas, sem teto, sem alimento, sem carinho. No entanto, não podemos deixar de nos sentir responsáveis pelo destino delas. A culpa olha para trás e tende a produzir sentimentos manipulativos; a responsabilidade olha para a frente e se baseia em sentimentos espontâneos.

Nessa mesma linha, é preciso levar em conta que sofrimento é sofrimento, seja “limpo”, seja “contaminado”. Saber que alguém está sofrendo em função de emoções manipulativas não deve levar ao menosprezo e à desqualificação de sua dor. Em não poucas vezes é a única saída que a pessoa – criança ou adulto – encontra para expressar suas legítimas necessidades. A questão é que podemos ser muito mais úteis quando evitamos que sentimentos contramanipulativos governem nossas atitudes. Também não é o caso de se sentir à vontade para dizer e fazer (ou deixar de fazer) aos outros o que bem se entende sob o argumento de que “cada um é responsável por seus próprios sentimentos”. (Levada às últimas consequências, essa tese conduz a um individualismo desenfreado com repercussões nefastas sobre pessoas e sociedades.)

O crescimento pessoal que pode ser alcançado à medida que lidamos melhor com nossas próprias emoções só é verdadeiro crescimento quando nos libera para sermos mais sensíveis às necessidades dos outros, mais disponíveis para um amor espontâneo, não contaminado por fatores manipulativos.
Qual a utilidade ?

Poucas coisas têm tanta importância em nossas vidas quanto relacionamentos estáveis com as pessoas que nos são importantes. Precisamos nos sentir amados e seguros de que esse amor perdurará. O ideal seria que o amor fosse percebido como algo incondicional, como se estivéssemos com frequência trocando mensagens do tipo: “Eu te amo porque você existe.” Ou “O fato de você existir enriquece a minha vida.” ( O que é muito diferente de “Você é responsável pela minha felicidade.”) Para que se sintam seguras, também é importante que as pessoas envolvidas se mostrem emocionalmente estáveis e portadoras de valores ou crenças que valorizem relacionamentos harmoniosos. Mas, mais importante do que todo o resto, o próprio indivíduo precisa se ver como alguém digno de ser amado. Quem tenha crescido em um ambiente desfavorável à evolução de um conceito favorável sobre seu próprio valor, em um meio em que se sentia rejeitado ou valorizado apenas por seu desempenho (não por ser mas por fazer), essa pessoa tenderá a se sentir indigna de ser amada simplesmente pelo que é, pelo fato de existir. Seu grande problema, passa a ser então: “Como posso me sentir segura neste relacionamento?”. Já está, bem se vê, fora de cogitação a hipótese de que a amem por ser ela mesma. Precisa, portanto, elaborar teias que lhe permitam, de alguma forma, prender, controlar os demais. Suas alternativas podem ser baseadas em idéias do tipo:

“Se tiver pena de mim, não vai me abandonar.”

“Se tiver medo de mim, não vai me deixar.”

“Se ficar dependente de mim, não vai poder ir embora.”

“Se tiver gratidão por mim, não poderá me decepcionar.”

Ou seja, é a convicção de poder provocar emoções nos outros que lhe dá a sensação de segurança de que ela tanto precisa.

É claro que, nessas condições, os relacionamentos serão inevitavelmente insatisfatórios, quando não francamente conflituosos. É provavelmente a uma ambiente assim que se refere o garoto personagem-título da peça de Jules Rennard “Poil-de-Carotte” quando exclama “Família é uma porção de pessoas que se detestam e são obrigadas a viver juntas”.

Não é de estranhar, portanto, que, se um dos membros do casal ou da família, simplesmente deixa de contramanipular, ou seja, de responder emocionalmente às manipulações de que é alvo, isso provoque uma escalada na intensidade das emoções do(s) outro(s) resultante, sobretudo, do medo de que se rompa a ligação. Vai ser preciso tempo e persistência para que perceba(m) que o relacionamento não está sob ameaça mas, ao contrário, caminhará para bases mais sólidas e mais satisfatórias à medida que forem sendo abandonadas as estratégias de controle.
Vantagens das explicações teleológicas

A grande vantagem de uma explicação teleológica em relação às explicações causais do comportamento é favorecer a consciência de que se tem possibilidade de assumir controle sobre suas emoções e seu comportamento. A perspectiva teleológica, ao conceituar – e demonstrar a dinâmica do processo – a perturbação emocional como algo gerado no interior do próprio sujeito (e não como algo que tem causa em fatores fora de seu controle), pode contribuir decisivamente para que tal controle seja realmente alcançado (Bandura, 1997)
Discriminando: Responsabilidade e culpa

É de fundamental importância para o êxito da terapia que se tenha em mente a distinção entre assumir a responsabilidade pelo próprio comportamento (e pela própria vida) e assumir culpa.

Na terapia de pessoas com auto-estima seriamente prejudicada, atribuir-lhes a responsabilidade pelo que lhes está acontecendo de ruim agrava a situação. Colocar a responsabilidade no “subconsciente” ou no “ego” ( no sentido que dão ao termo algumas correntes orientais de pensamento) ou, como o faz a Análise Transacional, em uma “criança interna”, pode ser recurso útil no sentido de mostrar que os problemas podem ser consequência de suas próprias atitudes e comportamentos ao mesmo tempo que se evita que se sintam culpadas. A terapia será direcionada, então, para a compreensão e modificação desses fatores – internos mas estranhos ao eu real (Horney, 1966) É possível tratar de alguns transtornos psíquicos – como é o caso da maioria das fobias – através de técnicas ou drogas apenas, sem interferir com a personalidade propriamente dita. Na maioria dos casos, contudo, não pode haver verdadeiro crescimento pessoal sem investimentos na modificação da personalidade o que, por sua vez, implica em questões de valores e no assumir responsabilidades ou, seja, adquirir controle.

Três objetivos das emoções manipulativas

Nós geramos emoções em nós mesmos com três tipos de objetivos:

a) Obter alguma coisa de alguém. A emoção gerada visa pedir coisas como socorro, proteção, carinho, atenção, apoio, condescendência, compaixão, etc. A expressão emocional, nesse caso procura demonstrar fraqueza, desamparo, impotência.

b) Libertar-nos de alguém. Diante de cobranças, pressões, expectativas, exigências, utilizam-se estratégias emocionais que podem envolver birra, mau humor, irritação, rebeldia, etc. A mensagem que se pretende enviar pode ser assim resumida: “Me deixe em paz.”

c) Fazer alguém se sentir culpado. A estratégia consiste em exibir sofrimento como o objetivo de comunicar algo do tipo: “Veja como estou por sua causa”. É comum em circunstâncias nas quais o indivíduo se sente magoado e se acredita vítima de injustiça. Por outro lado, embora haja razões práticas para considerá-la dotada de objetivo específico, é possível que a meta subjacente seja a de sentir-se valorizado. Nesse caso, o objetivo se enquadraria no item “a”. A reação da(s) outra(s) pessoa(s) – real ou imaginada – satisfaria de algum modo a necessidade de resgatar a auto-estima .
Contramanipulação

É importante ter em mente que o indivíduo a quem se pretende controlar através de uma emoção manipulativa tende a reagir gerando em si mesmo outra emoção que também visa o controle. Temos, assim, manipulação e contramanipulação.
Exemplo de aplicação da teoria: Análise Cognitiva Sistêmica

Apresentamos, abaixo, uma amostra da aplicação da teoria aqui exposta. O método é chamado Análise Cognitiva Sistêmica..

A paciente é mulher de cerca de 45 anos que procura terapia para superar ansiedade decorrente de dificuldades no relacionamento com os pais. Ela os ama e dedica apreciável quantidade de tempo cuidando de suas necessidades. Mas não consegue administrar o excesso de cobranças que eles lhe fazem, na maioria das vezes através de estratégias manipulativas em que se mostram desamparados e fragilizados. A paciente alterna momentos em que sente 1) culpa e ansiedade por, por exemplo, viajar em um fim de semana com marido e filhos, mesmo sabendo que os dois irmãos podem atender eventuais emergências dos pais; 2) irritação e ressentimento por se sentir invadida e privada de liberdade para se dedicar a atividades de seu interesse.

Os passos abaixo – elaborados pela própria cliente após algumas sessões em que foram discutidas as estratégicas envolvidas e em que recebeu instruções sobre como proceder – demonstram esquematicamente como chegar ao alívio dos sintomas através da substituição das crenças e das mensagens inadequadas, ligadas aos sentimentos negativos, por outras mensagens que expressam adequadamente o que se pretende .

Situação:

Sinto-me mal diante das cobranças excessivas que meus pais me fazem.
Convicções:

1)Eu sou responsável pelo que eles sentem.

2) Eles me deixam mal com essas cobranças.

3) Se eu não ficar mal eles não vão parar com isso.

Contestação:

1)Não sou responsável por sentimentos que eles mesmos estão criando para me controlar.

2) Eles não são responsáveis pelo meu mal-estar. Sou eu mesmo que me agrido para pedir que eles parem com isso.

3) Não posso obrigá-los a parar com isso, mas ficar me agredindo não adianta nada. Se eu não me agredir vou permanecer bem e, então, poderei pensar com clareza e, possivelmente, encontrarei estratégias mais adequadas para lidar com a situação.
Mensagens da Criança Interna deles:

Socorro; tome conta de nós. Estamos desamparados porque somos velhos. Perdemos tudo; somos dependentes. Você é responsável pelo que nos acontece e pelo que nós sentimos. Se você não nos der bastante atenção, vamos nos sentir inseguros e a culpa será sua.
(Observação: Os passos a seguir envolvem dramatização ao estilo da Gestalt-terapia (cadeira vazia) ou em imaginação.)
Mensagens da minha Criança Interna:

Pelo amor de Deus, parem com essas cobranças. Não me culpem pelo que você sentem. É por culpa de vocês que eu fico tão nervosa. Vejam como vocês estão me deixando mal.

Mensagens Alternativas:

Eu amo vocês e gostaria muito que vocês se sentissem bem; mas não sou responsável pelo que vocês sentem nem vocês pelo que eu sinto. Não vou ficar me agredindo para suplicar que vocês parem de me cobrar (dramatizar mentalmente a atitude que não vai mais ter). Vou ajudar vocês, mas quando eu puder e sempre me sentindo bem. Se vocês escolherem se sentir mal, vou continuar a amá-los, mas não vou ficar me agredindo.

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