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TEOLOGIA PARA TERAPEUTAS, OU FERRAMENTAS BÍBLICAS PARA TERAPIA DE CRISTÃOS por Karl Kepler

Artigos e Notícias

ratando neuroses instaladas em nome de Deus – por Karl Kepler

Texto “Limites” (Psicoteologia): tanto a psicologia quanto a Igreja têm limites

Ética x “ensinar” Bíblia em terapia; o ser procurado por ser cristão abre essa porta/dívida

Nosso contexto

Advertência: Vamos deixar claro desde o início que não estaremos questionando pessoas, nem cargos ou ministérios; pretendemos ser o mais honesto possível com os textos bíblicos, sabendo que todos estamos sujeitos a errar.

Desde já, acho importante fazer questão de chamar a todos os crentes de quem possamos discordar de meus irmãos, porque é isso que eles são.

O clima – a intenção deve sempre ser de procurar construir a obra do Senhor, e não simplesmente destruir a obra de outro irmão. “não julgueis” nos dá essa liberdade, a de ter fé e humildade perante o Senhor, e então tentar fazer da melhor forma possível o ministério que Ele pôs na nossa frente para ser feito. Dito isto, prossigamos:

As sugestões a seguir não são fórmulas mágicas nem técnicas de psicoterapia; são conteúdos da mensagem do evangelho de Jesus Cristo. Eu acho que na grande maioria das vezes essas mensagens da palavra de Deus precisariam primeiro se arraigar em nossa própria alma para conseguirmos transmiti-la a outros (mas talvez alguma emergência no consultório não deva esperar pela nossa própria “conversão”, fica a seu critério).

O problema de fundo

O tipo de relação que aprendemos a ter com Deus, especialmente quando confrontado com o que Deus fala sobre si mesmo. Temor/obediência, amor/intimidade.

A tônica de 95% dos sermões: Deus cobrando alguma melhora de mim. Domingo após domingo, ano após ano. Que imagem interna de Deus isso provoca? Um Deus com quem estou em dívida; um cobrador, eternamente insatisfeito; alguém me rodeando de todas as formas para extrair alguma coisa mais de mim (isso não lembra alguém outro?)

Cp. com Jesus: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados… e achareis descanso para vossas almas”. (Mt 11.28)

Compare com seus pacientes: qual a imagem interna de Deus que eles têm? A de alguém que dá descanso, ou a de alguém que vive cobrando esforço?

É claro que conhecemos as duas imagens, e tendemos a crer em ambas. (quando nos apresentamos em fraqueza, como tendo um problema, precisando de oração, aí geralmente ouviremos uma consolação especial, de confiar, descansar, entregar, etc.)

Mas qual é a imagem dominante? Em qual imagem nossa alma acredita mais? Geralmente um sermão tocante para nós mesmos é um que bota o dedo na nossa ferida, com o qual nossa consciência concorda. Ou seja, nós mesmos reforçamos essa tendência de mensagens cobradoras da parte de Deus.
O ser humano acredita muito mais nas más notícias do que nas boas; só que, graças a Deus, o evangelho é definido como uma “notícia boa”. Qual é a boa notícia em descobrir que Deus está insatisfeito comigo, que preciso melhorar aquilo, parar de fazer isso, me dedicar mais àquilo, etc.?

A solução de fundo é a essência do evangelho, que por ser tão não-humana, é difícil para nossa alma acreditar. A boa notícia do evangelho é que, por causa da vinda de Jesus Cristo, finalmente nós podemos ser aceitos por Deus, nos reconciliar com Ele, de graça.

A boa notícia é que Deus não está mais irado conosco: a ira já foi satisfeita nAquele que morreu em nosso lugar, e por isso Ele nos salvou, por meio da fé, [“justificados, pois, por meio da fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo” Rm 5.1] sem qualquer pré-condição, simplesmente porque Ele é bom.

Alegre-se, Deus não está mais descontente com você. Essa é a “maravilhosa graça”,maior que o meu pecar, que alivia a minha alma. A sua dívida já foi paga. Custou caro, mas foi paga, inteiramente.

Diretrizes Gerais

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei… e achareis descanso para vossas almas” (Jesus, Mt 11.28)
“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou” (Jo 14.27)

“Agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1)

“Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta a sua ninhada debaixo das asas, e não o quiseste” (Lc 13.34)

1. Bíblia x tradição. Um primeiro recurso, que vai ser aceito até pelos obsessivos mais preocupados, é diferenciar “palavra de homens” de “palavra de Deus”, e num segundo estágio – para os irmãos neo-pentecostais – diferenciar “profecia trazida por meio de homens, servos de Deus” da “palavra inspirada pelo Espírito Santo, o texto bíblico, as Escrituras Sagradas” que, cfe. os últimos versículos de Apocalipse, não devem mais sofrer acréscimo, nem subtração.
Todo pastor razoável admitirá que é um ser humano falível; se você perguntar amigavelmente, os pastores concordarão que seus sermões não são “Escritura Sagrada”, mas sim um tentativa sincera e piedosa de explicar mensagens baseadas na Bíblia (portanto sujeita a erros, tanto quanto esta palestra).

Já com os irmãos profetas pode ser um pouco mais difícil; infelizmente questionamentos não costumam ser bem vindos, e parte-se para um “tudo ou nada”: ou a pessoa é um “falso profeta” e 100% da mensagem está errada, ou é um arauto de Deus (e aí 100% estaria certo). A nosso favor temos um texto bem explícito:
“Não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias, mas ponde tudo à prova [examinai todas as coisas]. Retende o que é bom.” I Ts 5.19-21, que serve igualmente a nossas profecias e a nosso sermões.

“Examinar, por à prova” sugere que naquela profecia (ou sermão) há coisas boas e há também coisas ruins; em vez de obediência cega, Deus pede uma cautela respeitosa, porém firme: coisas ruins devem ser descartadas.
2. Enquanto a “tradição” geralmente se ocupa do observável, do exterior, Deus quer o nosso coração, o interior (Mt 15.1-20; Mt 11.28 a 12.8) “misericórdia quero, e não sacrifícios”.

3. Qual é a vontade de Deus (= o que é que Deus mais quer = qual é o “primeiro de todos os mandamentos” – Mt 12.28)
– Deus o único Senhor: amar a Ele de todo o coração; + amar ao próximo como a si mesmo (cp. Rm 13.8-10). Isso é mais importante do que todas as outras regras.

4. O exemplo a seguir: Jesus Cristo. Ninguém pode ser mais santo, mais espiritual, mais obediente, mais certo, mais consagrado, etc., etc. do que Jesus.

5. Fé. No sacrifício de Jesus, o Messias; na graça e misericórdia do Deus que ama pecadores– Rm 5.8; Mt 7.7-11.

Essa fé nos permite correr riscos. (diferentemente do “perdão somente dos pecados passados”, que nos leva a uma ‘vida na corda bamba’, onde qualquer escorregão pode ser fatal, perde a bênção, etc.).

Jesus foi chamado de comilão, beberrão, amigo de prostitutas e de funcionários corruptos; ele veio para os doentes, e correu risco de ser confundido com eles.

Paulo (I Co 9.19-22) correu o risco de pregar o evangelho da graça (Rm 3.8 – foi caluniado).

Forte na fé é aquele que realmente acredita que o sacrifício de Cristo foi e é suficiente para salvá-lo, para torná-lo aceitável a Deus.

Os fracos na fé são os que, além de crer em Cristo, crêem também na observância de algumas regrinhas – e correm o risco de deixar de crer em Cristo (=escandalizar-se) se as regras forem quebradas – Rm 14 (naquela época, não comer carne oferecida aos ídolos, guardar o Sábado, circuncisão; na geração passada, não beber cerveja, não dançar, não fumar; e hoje?) Vide Colossenses 2.20-23. James Bond era o agente que tinha licença para matar; nós temos “licença para errar”.

6. Santificação em Cristo (Colossenses 2.8 a 3.11). Comportamentos como conseqüência x como objetivo(cobranças), naturezas co-existentes até a volta de Cristo ou nossa morte. Sempre seremos santos e pecadores. Bons, mas com maldade também.

Os que quebram algumas dessas regras da igreja passam a ser considerados (ou a se considerar) “crentes de segunda classe” x Filipenses 3.4-8; “Felizes os pobres de espírito.”

A atitude básica nossa perante Deus deve ser a (sincera) do publicano, e não a do fariseu de Lucas 18.9-14. A de se saber doente e precisando do Médico, e não a de se achar são. A Galiléia, terra escolhida para o ministério de Jesus, era terra de “crentes de segunda classe”.

Até a nossa morte, “se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (I João 1.8). Aceitar a realidade do joio no meio do trigo; do “miserável homem que sou” & da “nenhuma condenação em Cristo Jesus” (Rm 7 & 8)

7. Medo de Deus (=> medo de pecar) x amor – I João 4.16-19. Por trás de toda essa preocupação com o erro, desse esforço em não pecar, está geralmente um medo muito forte de Deus. É a situação de um escravo, que não pode desagradar ao seu Senhor, porque isso lhe pode custar a vida, ou pelo menos muito sofrimento. Cfe. Rm 8.15-17, essa realmente era a situação do povo de Deus antes da morte de Cristo, no Velho testamento.

Mas no Novo testamento Deus nos adota como filhos, e pelo Espírito Santo desenvolve dentro de nós esse sentimento de confiança filia (“Aba, Pai”). O medo, então, deu lugar ao amor (Deus ama a quem dá com alegria – II Co 8).
E como amar a Deus? Primeiro ser amado ( Simão x a prostituta – Lucas 7.36-50 vs 47: “perdoados lhe são os pecados, que são muitos; porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco se ama”)

8. Deus Trindade/ relacionamento. “A vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste” (Jo 17.3) “Cresçam na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” ( II Pe 3.18)

Em vez de “Deus te ama e tem um plano maravilhoso para sua vida”, diga “Deus te ama e quer ter amizade com você, quer lhe conhecer mais e quer ser melhor conhecido por você.”

9. Pessoalidade “havendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13.1). “Isto é o meu corpo, que é dado por vós” (Lc 22.19) “Jesus [na cruz] vendo ali a sua mãe, e ao lado dela o discípulo a quem ele amava, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Então disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa.” (Jo 19.26,27).
Deus está interessado em pessoas, não em planos. A aliança dele é feita com gente, mais do que com conceitos, princípios ou idéias. Jesus não morreu por causa de planos, mas por cause de pessoas, você e eu e todos os outros.

Problemas pontuais

(mas sempre perceba o medo e a coisificação por detrás da pergunta pelo que é “certo x errado” –

Coisificação: como o relacionamento com Deus não é o que interessa, mas sim o “estar quites” com Deus; Medo: parece que o medo de estar errado não deixa muita possibilidade de confiar no amor de Deus)

(ver também o livro: O que a Bíblia permite e a Igreja proíbe – Ricardo Gondim)

Considerar as recomendações bíblicas menos como proibições de um deus irado, e mais como bons conselhos de um amigo que sabe das coisas e conhece os caminhos.

1. “Consciência Pesada” – pode ser consciência doente (cuidado com o livro Consciência Limpa) I João 3.20,21

2. Julgamento individualizado, segundo a medida da fé. Rm 12.3 “Pelas tuas palavras será julgado”; “não julgueis”; Rm 14.12 – cada um dará contas de si;

3. Bebida. É um problema em potencial; a embriaguez é condenada; mas nosso Senhor é exemplo perfeito de cristão, sabia beber. (Mt 11.19)

4. Fumo. É burrice, faz mal, é viciante; mas não há versículo bíblico explícito. Não rejeite alguém como irmão por fumar. (“não é o que entra pela boca…”)

5. Sexo. Há várias recomendações bíblicas; prevalece a diretriz de que o pecado mora no interior, no coração.

A “concupiscência” nasce no interior. Por exemplo, Col. 3.5: “ exterminai vossas inclinações carnais: a fornicação/prostituição, impureza, paixão, vil concupiscência e a avareza” x sexo antes do casamento; sexo fora do casamento (adultério); masturbação; fidelidade de Deus; união Cristo/Igreja; brincadeira, alegria; para esta vida.

6. Separação, Divórcio e novo casamento. I Cor. 7. Quando erramos e só podemos escolher entre o mal maior e o mal menor.

7. Para o contexto neo-pentecostal
Fé x não-cura; ver x crer; ministração da unção (a necessidade de estar sempre em crise).

Ef 5.17 “Procurando entender qual a vontade do Senhor, e não ser insensato” (= sem juízo, sem entender o que está fazendo, agindo às cegas)
8. Textos “estranhos”podem conter libertação. Ex.: Lc 14.26

Questões Espirituais/ Cristianismo avançado

Material para continuar o aprofundamento, até onde o tempo disponível o permitir.

1. Para a libertação psicológica; Lc 14.10 “Se alguém quiser vir após mim e não aborrecer a pai e mãe, irmão,…. não pode ser meu discípulo”.

2. A falibilidade pastoral (apesar da unção), caminho para a libertação do ideal de “super-homem”. O respeito ao pastor, apesar das falhas: aprendendo a aceitar a mistura de joio e trigo na vida, também em nós mesmos.

3. A certeza de ser pecador até o dia da morte (I João 1.8,10), sempre necessitado de misericórdia e de um Salvador. II Co 5:17/Rm 7 a convivência das duas naturezas em nós (pecadora e nova criação), até a volta de Cristo.

4. “Crescimento na graça e no conhecimento” – atitude básica de fé perante nossa vida concreta, aceitando as dificuldades e revéses, vendo (e participando de) o processo de Deus moldar nosso caráter para ser como o daqueles que entrarão no Reino de Deus (Mt 25), os misericordiosos espontâneos e autênticos.

5. Crescendo na esperança – a certeza do fato da ressurreição e da volta de Cristo; deixar essa “espera do encontro/libertação” influenciar nossa avaliação das situações por que passamos nesta vida. II Coríntios.

6. Espiritualidade mais pacífica (x “guerreira”), via fé (cfe. ponto 4) e “piedade”

(= exercício espiritual). Disciplina graciosa da leitura diária da Bíblia (guia Hernandez). Espiritualidade integrada com a vida “natural”, humana (mais que “sobrenatural”), “tentando entender”(Ef 5.17) e deixando os milagres serem raras e marcantes exceções. Como isso faz parte do “fé x vista” (II Co 4.18).

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