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SEXUALIDADE E ÉTICA EM TEMPOS DE BILL CLINTON por Carlos “Catito” Grzybowski

Artigos e Notícias

A poucos meses atrás os Estados Unidos pararam para assistir o depoimento do affair amoroso do presidente Bill Clinton com sua ex-estagiária, Mônica Lewinski.

Impressionante o espaço que ocupou nos maiores jornais do mundo com as minúcias de detalhes tal depoimento.

Mais impressionante ainda era a discussão jurídica do que realmente configurava uma relação sexual: se o presidente não tocou os seios da moça era relação sexual ou não? Se ela praticou sexo oral com ele, mas sem ele tocar nela era relação sexual ou não?

Qual o significado de toda esta trama no momento histórico-científico que vivemos?

Qual nossa postura, enquanto cristãos, em relação à ética, à sexualidade saudável e à patologia? Se no país da liberdade se discutem as contradições entre definir relação sexual e proibir que duas crianças se abracem num jardim de infância sob suspeita de assédio sexual, que papel temos nós, psicólogos, terceiro mundistas e moldados sob uma moral e ética hebraico-cristã?

Minha reflexão se inicia a partir do que entendo ser uma antropologia hebraico-cristã, com a criatura sendo gerada para portar a Imago Dei e destituída da mesma a partir dos dois momentos da queda.

O primeiro momento que tem a ver com a ruptura do homem com seu Criador, no qual ele deixa de cumprir com o quesito relacional de “amar a Deus de toda a alma, todo o entendimento e todas as forças”, narrado poeticamente em Gênesis capítulo 3, e o segundo momento que tem a ver com a ruptura do homem com o seu próximo, no qual ele deixa de cumprir o quesito relacional de “amar o seu próximo como a si mesmo”, descrito em Gênesis 4 – Abel e Caim.

Entendo que o homem foi criado para viver EM RELAÇÃO e que sua vida ganha sentido somente quando desenvolve relacionamentos significativos com seus semelhantes, reflexos do relacionamento significativo que ele procura com seu criador. A epístola de João nos afirma que se alguém diz amar a Deus mas não amar a seu irmão, na expressão concreta deste seu amor a Deus, é mentiroso (I João 4: 7-21)

Ao romper seus vínculos relacionais com Deus e com o próximo na tragédia da Queda, o homem perde tal capacidade relacional e desenvolve o que um autor moderno (não-cristão) denomina de “o gene egoísta” – substrato inerente a toda a criatura e que leva o homem a ver o outro como utilitário para a consecução de seus prazeres pessoais.

Seria este o sinal que Deus colocou em Caim e que se estende por toda a humanidade? Hereticamente conjeturo que sim, é bem provável.

A história está a nos mostrar que na medida em que os relacionamentos humanos passaram a intensificar o aspecto utilitarista do outro, as civilizações desintegraram-se social e moralmente, aniquilando todo o processo de desenvolvimento pelas mesmas iniciado. Tais são os exemplos de Grécia e Roma, como expoentes ocidentais mais conhecidos, porém não únicos.

Vivemos em dias similares. A dominação mundial, agora não mais bélica, porém ideológica, impõe pela força econômica, a sujeição ao “deus capital” e a conseqüente extirpação social dos dissidentes, que são destinados à “crucificação do mercado”, onde vão sangrando lentamente e morrendo à mingua pelos bloqueios internacionais, comandados pelos césares do capital – a exemplo de Cuba.

O Império hoje é o planeta e as legiões romanas talvez possam ser comparadas à multinacionais que invadem e se apossam dos novos territórios, logo colocando seus “centuriões” para comandar as bolsas de valores e estabelecer a ordem de sujeição ao deus capital ou à morte daqueles que quiserem rebelar-se.

E o que esta nova ordem mundial tem a ver com a ética e a sexualidade? Ocorre que o modelo político-econômico ultrapassa os campos exclusivos de sua atuação e passa a influenciar as demais áreas de conduta humana, servindo de molde para a forma de interação entre as pessoas no mundo moderno.

O outro passa a ser visto como uma oportunidade de negócio, um potencial a ser explorado, um utilitário que deve servir a seu proprietário por um determinado tempo de vida útil e que em seguida deve ser trocado por um modelo mais eficiente, moderno e se possível menos custoso.

Daí a discussão absurda do caso Clinton se a moça se deixou usar ou se foi forçada a ser usada, pois está em jogo o “respeito pela liberdade individual”. Perde-se a dimensão do outro enquanto pessoa, a dimensão de vínculos significativos que norteiem os relacionamentos.

Os relacionamentos afetivos estão limitados ao aspecto glandular. O outro é apreciado somente enquanto capacidade de me gerar prazer sexual. O máximo que se espera de um relacionamento é que ele possa proporcionar bons orgasmos. Lamentavelmente é a este reducionismo biologicista que chegamos neste final de século e milênio.

Resultante disto a necessidade de discutir juridicamente o termo relação sexual. Já não se trata mais de uma relação onde duas pessoas buscam alcançar um alto nível de conhecimento um do outro – significado este implícito nas relações sexuais descritas na Bíblia: (…e conheceu a sua mulher…) através da entrega incondicional ao outro e do desfrute do relacionamento em si, como meta-entidade capaz de aproximar ambos da Imago Dei.

Na medida em que se aproximam, se conhecem e se entregam incondicionalmente, são também capazes de conhecer e verdadeiro sentido do amor e por conseguinte o próprio Criador.

Relação sexual passa a ter o significado, nos dias de hoje, da exclusiva conjugação carnal ou da excitação mútua que leve a tal fim, independente se tal ocorra entre conhecidos ou desconhecidos, se tenham vínculos ou não, se dure minutos ou meses. O termo está mais determinado pelos hormônios que pelo afeto entre as partes. Embora reconheça que o próprio termo afeto já perdeu seu significado dentro desta esfera reducionista do biológico.

Os relacionamentos estão definidos muito mais em um aspecto comercial, onde cada parte negocia suas vantagens e, sobretudo, no modelo comercial capitalista neo-liberal, no qual os mais fortes prevalecem sobre os mais fracos.

Como citei em outro escrito meu sobre a influência do neo-liberalismo na sexualidade, que pode ser encontrado em meu livro: Macho e Fêmea os criou…, as características desta definição comercial dos relacionamentos são demarcadas pela competitividade, pela exacerbação do individualismo e pela ética de mercado.

Concluindo lembro as palavras de Ortega e Gasset referindo-se em um de seus ensaios ao famoso político francês Mirabeu: “Não acusemos de imoralidade o grande político, digamos que lhe faltem escrúpulos. Um homem escrupuloso, porém, não pode ser um homem de ação.”

Esta mentalidade representa bem o espírito de nossos dias e nada mais é que uma descrição perfeita de Bill Clinton. Passamos então ao campo da axiologia, do qual poderíamos discorrer muitas páginas, mas que, para nós cristãos, resume-se em um enunciado de Jesus: “Onde está o teu tesouro, ali também estará o teu coração”. (Mateus 6:21)
Carlos “Catito” Grzybowski

Psicólogo – CRP 08/117 – Terapeuta Familiar

Mestrando em Psicologia da Infância e Adolescência

Coordenador de EIRENE do Brasil

Assessor para Assuntos Internacionais do CPPC

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