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SEMANA SÍRIA por Cleydemir de Oliveira Santos

Artigos e Notícias

Dia 19 foi o dia do Índio. Poderia refletir seriamente sobre suas
necessidades, a má administração de recursos a eles destinados, nossa
responsabilidade com uma cultura que foi violentada e desrespeitada ao
longo dos séculos, como se nós fôssemos melhores, ou com mais direito do
que eles. Uma coisa é certa: tínhamos mais recursos, mais alternativas e
mais armas. Podíamos abusar, sem medo de uma reação ofensiva de peso.

Mas a palavra violência e abuso, me lembram que nesta semana também se
comemorou o dia contra o abuso sexual infantil (18), e a semana da leitura
do livro infantil. Qual abuso é pior?

Certamente a dor do abuso sexual é mais profundo, mais de difícil acesso
para cura do que um analfabeto, que pode com maiores dificuldades,
aprender a ler, escrever e desenvolver outros recursos para crescimento.
Mas não é abuso menor.

O abuso sexual, que ironicamente vem marcado nesta semana com vários casos
em nossa região, e no país, é mais complexo do que imaginamos. Não
conheci, não pesquisei sobre a menina que veio nas manchetes semana
passada. Não entrevistei o nosso representante junto ao abuso, o
Engenheiro de Valadares. Não conversei com as prostitutas que o
denunciaram. Mas saibam que todos devíamos estar presos com ele (não me
confundam com o médico alienista)

Somos responsáveis. É crime social.

Já era crime antes da denúncia. Antes das câmeras flagrarem o sujeito, de
quem fizeram questão de evidenciar o 3º grau que pôde cursar. É
engenheiro. Quantos passamos naquela rodovia antes dele? Quantos vimos a
criança ali?

Quantos pais “passamos” ali de dissemos um para o outro:

Oh! Coitadinha não? Que situação! Será que não há conselho tutelar nesta
cidade?? pergunta um pai, como se a responsabilidade fosse
exclusivamente de 6 ou 7 “eleitos” para isso.

Realmente é um absurdo! Como pode tão nova e já gostar dessa vida fácil!

– Comenta uma mãe preocupada!
Lembro-me da parábola do Bom Samaritano!

Outros tantos não pararam para abordá-la e abusá-la por medo do risco
óbvio que o outro correu (e se ferrou), mas sabe-se lá o que construíram
em perversas fantasias…

Tratar qualquer destes indivíduos é um desafio. Pasmem:

A grande questão com uma criança desta é fazê-la perceber que houve abuso
contra ela.

“Ele foi tão carinhoso”, ela poderia disser. “Ele não me forçou a nada.
Me deu tanto dinheiro como nunca tinha visto, deu para comprar arroz e
sobrou para um chocolate” ? já ouvi isto outras vezes, de crianças e de
mulheres agredidas.

Esta menina pode estar se sentindo culpada, por uma pessoa “tão boa” estar
presa por causa dela.

Realmente há tanto abuso social quanto sexual neste episódio. Mas o abuso
sexual é bem caracterizado. Ela não conhece o valor do seu corpo, não
define a questão da imaturidade biológica, e confunde dor com o ato sexual,
prazer com dinheiro. Compromete todo o seu futuro como pessoa, como
parceira sexual, como mãe, como ser humano que pode lutar dignamente pelos
seus direitos.

E infelizmente, o primeiro bêbado, ou traficante que lhe fizer uma
proposta que tenha um mínimo de segurança financeira, ela embarca, de alma
e coração, pensando Ter encontrado o príncipe encantado, quando não está
grávida de alguém, que ela nem sabe o nome todo.

Se entrevistarmos o sujeito, herói deste episódio amargo, ele vai achar
que abuso foi o que ele sofreu na cadeia, afinal, não o pagaram e o
forçaram a algumas situações. Claro que isto também é abuso, mas não
diminui o anterior.

– “Eu não fui buscá-la, ela estava na rodovia, em busca disto. Não
acredito que fui o primeiro, ou que serei o último. Eu paguei o preço
combinado.”

Percebem o grau de enrijecimento, de percepção do outro como pessoa? Isto
é responsabilidade de uma cultura, onde o prazer importa mais que o
respeito ao outro, e o centro do universo é o umbigo de cada um. É o mesmo
sentimento que faz alguém desviar dinheiro d educação para enriquecimento
de alguns, ou para uma obra que lhe convenha.

Somos responsáveis. Precisamos nos envolver, participar, ajudar na
prevenção. Prevenção via educação, via compromisso na hora do voto.

Buscar “temor do Senhor, que é o princípio da sabedoria”, e olhar o ser
humano, nosso próximo como Deus o vê:

Um ser capaz de mudança de crescimento, de cumprir seus deveres e gozar
seus direitos, em comunidade, onde o direito de um termina onde começa o
do outro. (Por quem Ele deu o próprio filho Jesus.)

Onde o direito de Ter prazer sexual, não me permite abusar do outro, seja
abuso físico (forçado) ou abuso do poder do dinheiro de quem pode pagar
por uma menina de 10 anos, ou uma mulher de 30, que não sabe avaliar seu
próprio valor como pessoa.

Onde o direito de enriquecer e ter não pode ser maior que o direito do
outro de Ser pessoa, digna, respeitável, autônoma. No mínimo alfabetizada.

Onde o índio, ou a criança, ou o velho, ou o pobre, não seja respeitado
por causa da lei, da polícia ou por medo da cadeia, mas por causa do que
ela é.

Êta Semana séria.

Cleydemir de Oliveira, psicólogo em Ipatinga.
Membro do CPPC

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