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REFLEXÕES SOBRE O AMOR INCONDICIONAL, por Zenon Lotufo Jr.

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Efeitos do amor sem condições

“Não sei mais o que fazer com esse meu filho! Já tentei prêmios e castigos, já fiz tudo o que era possível e parece que nada dá resultado; ele está cada vez pior.” A mãe amargurada se queixa do filho, garoto de seus 12 anos, que está com notas baixas na escola e passa as tardes absorvido nos videogames, quando não está aborrecendo a irmã, dois anos mais nova.

Acho que muitos pais “já viram esse filme”; as medidas experimentadas não surtem nenhum efeito positivo e o mal-estar entre pais e filhos vai em um crescendo que sequer dá espaço a tréguas. O ambiente familiar torna-se tenso e, não raro, a troca de recriminações entre os esposos deságua em conflitos sérios porque, entre outros fatores, eles acreditam que “se as coisas não vão bem, a culpa é de alguém”.

Talvez o maior problema resida em que, com o correr do tempo e o crescendo do sentimento de frustração dos pais, estes passem a exibir uma atitude que comunica ao filho o seguinte: “O simples fato de você existir me aborrece”.

Ora, é claro que não é isso que eles pensam, mas é o que, inadvertidamente, transmitem.

E é o que o filho, de alguma forma, capta do comportamento paterno. Então, sentido-se assim rejeitado, é provável que ele também demonstre e expresse rejeição para com os pais, criando-se um trágico círculo vicioso.

Eu mesmo passei por situação semelhante com um de meus filhos, uma situação que, embora não tenha atingido proporções graves, poderia ter resultados bem desagradáveis: estava de férias, ficava quase todo o tempo nos videogames e no tempo restante, volta e meia aborrecia as irmãs. Era verão, tempo bonito, éramos sócios de um clube próximo mas, por mais que eu a esposa insistíssemos, não saía de casa. Às tantas, me dei conta de que estava transmitindo a ele essa mensagem perniciosa: “Você parece que só serve para atrapalhar a vida da gente”. Mas era isso que eu pensava ou sentia? Evidentemente, não. Muito ao contrário, a simples existência dele era, e é, uma riqueza para minha vida. Então, como demonstrá-lo? Bem, essas coisas a gente expressa através de uma forma de olhar e de sorrir, através de um abraço ou um beijo inesperados, sem mais nem menos, sem que tenha havido um motivo, uma condição. Pois é nisso que consiste o amor incondicional: tomar consciência e expressar que a simples existência da pessoa amada nos enriquece a vida.

Pois no meu caso, o efeito foi rápido e sensível. Em bem pouco tempo meu filho mostrava uma fisionomia mais alegre e passava a procurar atividades saudáveis fora de casa.

Tenho procurado, sempre que me lembro, fazer a mim mesmo as perguntas: essa pessoa enriquece ou não minha vida? Se enriquece, como demonstrar? Acredito que os gestos de carinho façam bem para quem os recebe; de qualquer forma, para mim faz muito bem tomar consciência de quanto de precioso tenho em minha vida, coisa que me enche de gratidão ao Pai.

Aceitação

Em uma de suas passagens mais sábias, Jung usa a palavra “aceitação” para se referir à atitude de que falo; em palestra para um grupo de pastores, o psiquiatra suíço afirmou que é impossível ajudar alguém a mudar – para melhor, bem entendido – a não ser através de aceitação: Não podemos mudar seja o que for, a menos que o aceitemos.[1] E, logo em seguida, acrescenta que a regra vale também no que se refere a nós mesmos; não podemos mudar para melhor nem crescer como pessoas através de cobranças que estabelecem condições para a auto-aceitação nem com autocríticas negativas que resultam de não conseguir satisfazer essas exigências. E Jung ressalta a importância de aceitar-se: A aceitação de si mesmo é a essência do problema moral e o centro de toda uma concepção do mundo.[2]

Em outras palavras, o amor incondicional, que é tão importante quando dirigido ao próximo, também precisa ser oferecido a nós mesmos, coisa que, como afirma Jung com toda a razão, é ainda mais difícil do que fazê-lo aos outros. E é difícil, em grande medida porque, jamais tendo experimentado amor incondicional, não sabemos bem de que se trata, além de que tendemos a confundi-lo com narcisismo.

Em seu livro O Segredo do Amor Eterno[3], o padre e psicólogo norte-americano John Powell, usa uma expressão interessante e, a meu ver bastante adequada, para se referir ao ponto: celebração de si mesmo. Escreve ele que há entre os estudiosos um consenso cada vez maior de que existe no ser humano uma necessidade fundamental que, quando satisfeita, tem como conseqüência uma sensação geral de bem-estar e felicidade. Esta necessidade -explica – é um profundo e verdadeiro amor ao eu, uma auto-aceitação genuína e alegre, uma auto-estima autêntica, que resultarão em um sentido interior de celebração: “É bom ser eu mesmo…estou feliz por ser eu!”[4]

Powell reconhece que essa é uma afirmação que costuma causar desconforto nas pessoas : logo a associamos a egocentrismo, vaidade e egoísmo. Acreditamos que os outros vão nos rejeitar se deixarmos transparecer sinais de auto-aceitação. Mas, na verdade, a pessoa que se aceita, não tem a preocupação de exibir-se; não precisa considerar-se nem inferior nem superior aos demais; simplesmente não lhe ocorre comparar-se aos outros, e esse é o significado básico de “humildade”.

Para esclarecer melhor a questão, Powell cita Erich Fromm: O egoísmo está enraizado nessa falta básica de amor por si mesma… o narcisismo, como o egoísmo, é uma supercompensação pela falta básica de auto-estima… A pessoa não ama aos outros nem a si própria.[5]

Aceitar: concordar com o erro?

Nem precisaria dizer, por outro lado, que aceitar os outros ou a si mesmo não significa concordar com o que está errado. Ocorre que a atitude de não aceitação pode constituir um sério bloqueio a que nos conheçamos ou a que os outros se dêem a conhecer a nós. O medo de sermos rejeitados impede de nos darmos a conhecer, seja aos outros, seja a nós mesmos e isso torna difícil entrar em contato com a raiz – os fatores que estão por trás – de nossos erros.

Por isso, enfatizo uma vez mais, aceitar não só não significa concordar com o que está errado, como também é condição sine qua non para perceber o erro e para superá-lo.

Amor do Ser

Em momento notável daquele que foi há pouco eleito o melhor filme de todos os tempos[6], o Cidadão Kane, de Orson Welles, a esposa do personagem central, não mais disposta a suportar o egocentrismo do marido, um riquíssimo e poderoso empresário, resolve deixá-lo. O marido procura dissuadi-la argumentando: “Mas eu não posso viver sem você”, ao que ela responde: “Está vendo, mais uma vez você só está pensando em você mesmo.”[7] A cena ilustra um aspecto do amor, aquele em que o relacionamento com a pessoa amada centra-se muito mais na satisfação das necessidades imaturas do amante do que no enriquecimento mútuo das existências dos parceiros.

Abraham Maslow, pilar central da Psicologia Humanística, foi extremamente feliz ao mostrar que nós somos motivados por dois tipos de fatores: aqueles que nos movem para “tapar nossos buracos”, isto é satisfazer nossas carências, suprir o que nos falta, e aqueles que nos impulsionam a tornar mais rica nossa existência.[8] Os fatores do primeiro tipo trazem insatisfação quando ausentes (ou presentes) mas não nos tornam mais felizes quando presentes (ou ausentes). É o que acontece com qualquer tipo de desconforto físico como, por exemplo, um sapato apertado: se o pé está doendo, ficamos ansiosos por nos libertar do incômodo mas, muito pouco tempo depois de consegui-lo, nada mais resta da gostosa sensação de alívio que nos invade quando nos livramos daquele calçado. A essa categoria de fatores Maslow chama de “motivação de deficiência” ou “D-motivação” e, no caso específico do amor, de “D-amor”, que ele assim descreve: É um buraco que tem de se encher, um vazio em que se despeja o amor.[9]

Uma pessoa com sérias carências afetivas, que espera que uma relação amorosa resolva os problemas de sua vida, ficará presa ao D-amor. Condicionada por histórias infantis como Cinderela, Branca de Neve e Bela Adormecida, bem como pelos livros filmes, e novelas de TV que apresentam o amor como solução mágica para todos os problemas, essa pessoa lançará sobre um(a) eventual parceiro(a) uma carga que fará com que o relacionamento inevitavelmente afunde.[10]

Sim, há necessidades saudáveis que as relações amorosas devem preencher: companhia, contato físico, sexo, etc. O problema é que, encaradas como carências e uma vez satisfeitas, “resolvidas”, perdem por certo tempo a capacidade de motivar. Sua satisfação evita o mal-estar que resultaria de sua frustração mas, por si só, não contribui para enriquecer a vida do casal.

Mas há também o amor que caracteriza as pessoas amadurecidas. Maslow o chama de amor do Ser ou S-amor. Pode-se viver sem ele mas sua presença faz com que se perceba a pessoa amada como uma riqueza. Diz Maslow que o S-amor dá ao (à) parceiro(a) uma imagem e uma aceitação do próprio eu, um sentimento de dignidade no amor, o que lhe permite crescer. [11]A aceitação que permeia essas relações é um fator importante para o pleno desenvolvimento do ser humano, desenvolvimento que, para Maslow, sem ela, provavelmente se torne impossível.

O amor incondicional de Deus.

Teólogos de todos os tempos debateram a questão das emoções de Deus. Até que ponto um ser imutável pode alterar-se em função de circunstâncias? Soluções as mais diversas foram propostas, mais ou menos elaboradas, defendendo este ou aquele ponto. Vejamos, por exemplo, a palavra “ira”; na maior parte das vezes relacionada a Deus, ela aparece cerca de 580 vezes no Antigo Testamento e, várias vezes também no Novo Testamento. Um teólogo bastante conhecido, H. R. Mackintosh, referindo-se àintensa reação de Deus contra o mal moral [12]que a Bíblia chama de “ira de Deus”, e buscando refutar aqueles que não admitem que tal emoção atinja o Criador, argumenta que (C)ada argumento filosófico usado para negar isso (a ira divina) sob o pretexto de que implica em excessivo antropomorfismo, é um argumento igualmente bom para negar até mesmo Seu amor.[13]

Será que moderna pesquisa sobre as emoções nos ajuda a lançar luz sobre o assunto? Acredito que sim e um dos aspectos importantes com relação a isso é que hoje sabemos que nossas emoções[14] em sua quase totalidade, existem em nós, bem como em outros animais, com funções bastante precisas de garantir nossa própria sobrevivência ou de nossa espécie. Assim, a ira exerce o papel de preparar o organismo para a luta, ativando mecanismos fisiológicos que geram energia, dão força aos músculos e tornam o corpo mais protegido. Sua existência não tem, portanto, nenhum sentido para seres espirituais, ainda mais quando se sabe quanto as emoções dependem, para serem desencadeadas, de alterações corporais que incluem processos físico-químicos do sistema nervoso central.

Mas há outro ponto a considerar: a quase totalidade das nossas emoções relaciona-se à D-motivação; existem para suprir deficiências ligadas à sobrevivência individual ou coletiva. Excetuam-se aquelas que pertencem à esfera do Ser, aquelas que têm a ver não com a mera sobrevivência, mas com a plenitude de vida. Esse é, essencialmente o caso do S-amor. Talvez a única emoção coerente com a imagem de Deus que Jesus nos apresenta seja essa forma de amor, um amor que não decorre de necessidades que precisam ser preenchidas mas sim da busca de um existir enriquecido.

Não é possível conciliar a idéia de Deus com algum tipo de carência, de deficiência. Não consigo pensar em Deus criando os seres humanos para suprir algo de que ele carecia, seja isso louvor, adoração ou o que mais for que se considere a razão pela qual fomos criados. Por mim, concordo integralmente com a conclusão de uma cliente a quem eu procurava mostra a importância de aceitar a si mesma e aos demais, relacionando isso à graça, ao amor incondicional de Deus. Demonstrando em seu rosto quanto a idéia a surpreendia e encantava, exclamou: “Então eu enriqueço a vida de Deus!?”.

Olhando para o Deus que se vê através de Jesus, pode haver dúvida quanto à resposta?

Zenon Lotufo Jr. é pastor e psicoterapeuta,

[1] JUNG, C. G., Relações entre a Psicoterapia e a Direção Espiritual in Psicologia da Religião Oriental e Ocidental. Obras Completas, Vol. XI. Tradução de Mateus Ramalho Rocha. Petrópolis: Vozes, 1980, p. 341.

[2] Loc. cit.

[3] Editora Crescer, Belo Horizonte, 1987.

[4] Op. cit. p. 13. Ênfase do original.

[5] E. FROMM, O Medo à Liberdade, apud Powell op. cit., p. 15.

[6] ‘Cidadão Kane’ volta a ser eleito o melhor filme da história. Arthur SPIEGELMAN, notícia da Agência Reuters de 21/06/2007, disponível emhttp://www.estadao.com.br/arteelazer/cinema/noticias/2007/jun/21/133.htm, acessado em 12/07/2007.

[7] Vi esse filme há bastante tempo e posso estar distorcendo alguma coisa, mas acho que esse foi o essencial do diálogo.

[8] As idéias de MASLOW a esse respeito estão expostas em seus livros Introdução à Psicologia do Ser (Rio de Janeiro: Eldorado, s/data) e Motivation and Personality(Nova York: Harper, 1970).

[9] Introdução à Psicologia do Ser, p. 68.

[10] O fracasso da relação só não ficará patente se as patologias dos envolvidos for de tal sorte que se compensem como acontece, por exemplo na codependência afetiva ou, mesmo, na chamada “folie à deux”.

[11] Introdução à Psicologia do Ser, p. 70.

[12] MACKINTOSH, H. R. The Christian Experience of Forgiveness. Londres: Fontana, 1961/1927, p. 142.

[13] Op. cit. p. 143.

[14] Refiro-me aqui às chamadas emoções espontâneas ou primárias, que devem ser distinguidas daquelas culturalmente determinadas.

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Zenon Lotufo Jr.

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