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PROVAÇÃO E DEVOÇÃO ANOTAÇÕES DE UM RETIRO COM CARLOS HENÁNDEZ

Artigos e Notícias

Diante de provações que geram dor e questionamentos, precisamos desconstruir nossa imagem de Deus, trazer à memória experiências da Graça e reconstruir esta Imagem como um mosaico com as peças que representam estas manifestações da Graça. Aí, descobrimos uma beleza ainda mais intensa que nos surpreende. A vida é um dom que não podemos reter, que precisamos entregar. O sofrimento gera em nós uma sensibilidade à Graça à medida que a gente escolhe não revidar aos golpes da vida, assim como a mãe suficientemente boa não revida à agressão do filho.

No último encontro, vimos que vamos ser quebrantados de qualquer jeito: ou pela vida ou pela mão de Deus. Então, é melhor escolher entregar-se à mão de Deus.

Meditação na capela: concerto animal. Ruídos internos. Obsessões… até chegar em casa. A casa é o prolongamento do ventre materno onde somos nós mesmos.

Habacuque 1:12 a 2:4. Vigio para buscar uma resposta aos meus porque! Não é uma elaboração racional. Não se trata de explicar o sofrimento. Gritamos ou nos deprimimos, dando espaço para a auto-comiseração, apatia ou resignação. A palavra nos convida a questionar a Deus. Ficarei em silêncio, ouvindo e recebendo esta resposta: o justo viverá pela fé. Escreva para não esquecer. A gente guarda as feridas, mas não as respostas. Tem uma memória seletiva. Se demora: Espere.

Passar de cidadão do Reino a cidadão do Mundo para salvar meus inimigos. O inimigo é parte do projeto de Deus. O mundo está organizado pela Graça de Deus. Quando estou numa situação difícil onde me sinto derrotado, preciso voltar aos meus anseios e gritar até perceber que Deus me ama pela fé.

Racionalizar o sofrimento me torna cada vez mais alienado. Descubro uma razão maior que a minha que inclui o sofrimento. Uma razão que não posso compreender e à qual tenho acesso somente através da fé. Volto a ser criança e percebo algo que o adulto não enxerga. Um insight ao qual só tenho acesso quando me calo e percebo os detalhes: o canto do passarinho. O plano de Deus não são os acontecimentos (caos), mas a palavra que ordena o caos. É sofrido crescer. Não dá para caminhar sem cair. A dor gera novas articulações internas. O crescimento gera gozo também.

Não se trata de explicar o sofrimento, mas de expressar nossas emoções: indignação… que geram uma nova percepção para formar nosso mosaico do Pai. É um paradigma de transformação diferente de câmbio ou uma mudança que você escolhe. Não é uma escolha consciente, mas uma nova percepção, nova configuração que nos torna cada vez mais quem somos. É parecido com o processo da adolescência. É uma descoberta que nos surpreende e nos revela novas facetas de nós mesmos. O Espírito Santo nos dá a dignidade e coragem de comparecer diante de Deus. O desfrute é pluridimensional e descontínuo. O filósofo indaga: me explique o que é o ser? O ser é!

Os evangelhos falam da morte. Os fariseus militam para a morte, planejam a morte. Há forças que conspiram para a morte e outras para a vida. Queremos confrontar a morte. Como não enfrentar o mal, mas absorver o mal? Mc1:35: se despertam novas faculdades que permitem perceber que a morte é parte da vida, assim, por exemplo, a morte do nosso eu defensivo.

Winnicot: o bebê percebe que a mãe sobrevive ao seu ataque. Na cruz, expressamos toda a nossa crueldade e se desperta uma nova biologia. Orar no escuro. Despertar. Subir ao monte. Assumir o peso do nosso corpo. E surge uma nova percepção da realidade.

O fariseu tem um horizonte limitado: o poder. O Senhor nos convida a falar com o Pai e ingressar numa realidade trinitária, relacional, que apreendemos na oração que brota da escuridão. As flores brotam das raízes que estão debaixo da terra. A história de Jesus é a história de um diálogo entre ele e seu pai. Nesta relação, descobrimos nossa identidade e vocação.

O processo criativo requer estar em casa. Ele nos capacita a lidar com o sofrimento e com a alegria. O desfrute implica este ambiente familiar e lidar com emoções fortes. Quanto mais real eu sou, mais real se faz o Outro que alcançamos agressivamente. Aprendemos a ter intensas emoções como Davi. Sair do delírio é como escorregar num precipício e encontrar uma pedra que nos sustenta.

Deus suporta nossos questionamentos que nos levam à uma nova consciência. Deus é suficientemente bom no sentido que não nos poupa do sofrimento. Ao invés de experimentar uma retaliação de Deus, recebemos um abraço que nos desarma e nos dá paz.

Winnicot pediu: ” Que esteja vivo na hora da minha morte”. Livro: Tudo começa em casa.

Coisas difíceis que evitamos sondar e das quais podemos tirar um pedacinho do mosaico. “Vocês têm me deixado brincar”. Assim, podemos ingressar na noite acompanhados.

Terapia é estar na presença de alguém que te ama, te dá continente e te deixa criar. Todos temos nossos Emaús, nosso Cristo morre, no caminho aparece alguém ou algo. O horizonte da morte nos torna mais conscientes da vida e mais capazes de desfrutar dos presentes da vida. Deus vem, e quando o reconheço, ele some. Muitas vezes, a gente está tão acomodado que não percebe estas visitações. A vida de oração nos integra e provê alívio. É um encontro integrador onde enxergo meu ser agressivo.

É preciso abrir espaço, tirar caixas e entulhos. Como criar um espaço em mim para que o outro venha? Se não, ele não pode entrar. Enxergar em minha vida novidades que aconteceram e que não registrei: pedaços do mosaico. A capoeira, a terapia são espaços transacionais.

Estas intervenções do Espírito Santo geram um sentimento de alívio. Temos ações compulsivas que nos impedem de desfrutar da vida. Temos caixas reservadas para coisas especiais que não acontecem. Uma luz na escuridão. Medo de ser usada. Cada pessoa que contribui para este mosaico. Milhões de células precisam morrer todo dia. Se não, se tornam em câncer. O silêncio dá mais peso à Palavra.

Salmo 131: simplicidade e sensibilidade. Tem um espaço do nosso ser que sossega somente em Deus.

O Espírito Santo nos permite superar nossas dissociações.

Jogo: entremos em silêncio… vamos dançar. Dimensão coletiva da fé. A leitura bíblica é um caminho místico onde nossas defesas morrem para que nossa alma possa ouvir bem.

Precisamos derrubar nossos templos.

Na devoção, voltamos diariamente a Deus buscando abrigo. O insight acontece num colo “holding”. O Espírito Santo nos abençoa, nos cobre com suas asas e não revida:

– às nossas sombras (pelo contrário, se revela no escuro),

– às nossas projeções,

– à nossa onipotência,

– à nossa raiva e agressividade.

Lc 13:31-35. Ser acolhido e enfrentar a morte de cada dia.

Terapia: pode xingar!

Kierkegard: o homem se afirma na resistência. Pontalis: break down/break through (quedalivre/insight que acontece durante a queda). È o colo de Deus que me sustenta. Vivência. Experiência corporal, cinestésica. Passar da idéia para a vivência. A vida cristã é uma vivência cinestésica. Nossa fé precisa assumir riscos e voltar a Jerusalém à noite, apesar dos ladrões. Ao me lançar, percebo que há uma comunidade que me sustenta. O templo é derrubado na queda e uma nova percepção surge. Sem a queda, não há fé. É a vivência, registrada corporalmente, da fé. A fé se encontra em circuitos neurobiológicos ligados à sexualidade. O maior orgasmo é integrar-se com sua contra-figura sexual (anima/animus).

Winnicot: a feminilidade é o princípio da vida, a experiência de ser. Ser antes de fazer. Descobrir a Deus antes de falar de Deus.

Masculinidade: experiência de ser usado. Não desintegrar-se na experiência de ser usado. O Espírito Santo me permite encontrar-me comigo mesmo e me perceber inteiro, integrar-me. E, a partir desta experiência, posso ir ao encontro do outro.

Ceia: nos aproximamos de um Deus que comemos.

Enfrentar o mundo contemporâneo com experiências de fé tão radicais quanto o mundo onde vivemos.

O mesmo lugar que traz equilíbrio (labirinto) também permite a capacidade de escuta (ouvido).

A masculinidade fora do feminino se torna obsessiva na ação.

Fazer sem ser vem de um falso self. A nossa criatividade é ação do Espírito Santo em nós que nos faz perceber a vida como uma construção, uma arte, que existe um breakthrough para ver o que a gente ainda não enxergava. Ser em Deus. Quando cessa a demanda, posso ser criativo.

Devoção que gera integração.

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