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POSSÍVEIS CONTRIBUIÇÕES DA TEOLOGIA À PSICOLOGIA E PSIQUIATRIA, por Gottfried Brakemeier

Artigos e Notícias

Gottfried Brakemeier

Inicio com uma calorosa saudação a todas e todos que participam deste XV Congresso Nacional do CPPC, isto é do “Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos”, bem como aos hóspedes que o prestigiam por sua presença neste ato de abertura. Agradeço pelo convite de lhes dirigir a palavra nesta oportunidade e trazer algumas reflexões sobre possíveis contribuições da teologia à psicologia e psiquiatria. Confesso ter aceito o convite com alguma hesitação, com “temor e tremor”, no dizer do apóstolo Paulo. Pois não sou especialista em psicologia nem mesmo em psicologia pastoral ou poimênica que é disciplina obrigatória na educação teológica. Considerando haver outras pessoas mais competentes, a exemplo de meu colega Carlos L. Hoch com qualificada contribuição sobre exatamente essa matéria[1] e considerando a longa lista de publicações sob a égide do CPPC com relação direta ou indireta ao tema, perguntei-me se não seria muita audácia da minha parte aventurar-me a adentrar uma área que não me é propriamente familiar. Se ainda assim aceitei o desafio foi porque vejo não só um ramo, e, sim, a teologia na integralidade em dívidas com as demais ciências. Ela não pode restringir seu discurso à esfera privada nem contentar-se com tão somente um nicho no universo do saber. Embora nem sempre seja bem-vinda, articula, assim sustento, provocações salutares. De qualquer maneira, a teologia tem um compromisso com a interdisciplinaridade. Quer ser parceira no afã da ciência.

 

Então, vou falar como teólogo. Não posso falar em nome da psicologia e psiquiatria. Proponho minhas reflexões, na modéstia que me cabe, como “possíveis” contribuições ao debate, sujeitas à necessidade da avaliação crítica. O que para tanto me animou foram, não por último, os próprios objetivos do CPPC. Congratulo-me com essa entidade que se propõe a pautar as atividades de seus associados por princípios cristãos e promover o diálogo entre o saber e a fé. Ela nega a essa disciplina a neutralidade conceitual na aproximação aos fenômenos e se opõe à sua redução a uma questão meramente técnica. Descubro nesse propósito o mesmo espírito de cooperação e intercâmbio que exijo da teologia. Não podemos enclausurar-nos nos castelos das nossas especialidades como se fôssemos donos do saber e detentores de monopólios. Devemos prestar contas uns aos outros e arriscar a cooperação para o que, no que tange à teologia e à psicologia, existem belos exemplos práticos, de equipes interdisciplinares em hospitais e outras instituições. Isto não significa que todas as perguntas tivessem sido respondidas. A relação entre teologia e psicologia, respectivamente psiquiatria permanece na agenda. Houve suspeitas de parte à parte, ainda hoje não completamente superadas. As próprias disciplinas, seu objeto e sua finalidade continuam em discussão.

 

É possível que as suspeitas a que me refiro sejam motivadas em boa medida justamente pelas afinidades entre as duas ciências. Ambas, psicologia e teologia, se ocupam com a pessoa humana, mais precisamente com a sua “alma” (em grego “psyché”, em latim “anima”). Com métodos distintos, com terminologia própria e instrumental específico pretendem a cura do ser humano, o resgate de alguma forma de enfermidade, de “perdição”. A teologia usa a expressão “cura de almas” para o seu afazer pastoral, que em termos verbais é sinônimo exato de “psicoterapia”, embora “cura” tenda mais ao significado de cuidado, preocupação. O que se pretende, é o bem da alma. Não se tem em vista propriamente “salvação”. Fala-se em cura, terapia, zelo. E todavia, as pretensões, cá e lá, vão nitidamente nessa direção. Ademais, teologia e psicologia compartilham as dúvidas com respeito a seu objeto. A alma, como se deve defini-la? Ela de fato existe? O mesmo vale com relação a Deus que não é nenhuma evidência. Ora, que ciências são essas, cujo objeto foge à verificação e está sujeito a questionamentos? Ninguém jamais viu a alma, assim como jamais alguém viu a Deus (Jo 1.18), uma verdade que fez um cínico proferir a seguinte oração: “Ó Deus, se tu existes, salva a minha alma, se eu tiver uma.” Ambos os conceitos, pois, tanto o da alma quanto o de Deus são controvertidos e continuam em acalorada discussão.

 

A despeito de tais incertezas, porém, a psicologia, juntamente com suas filhas que são a psicoterapia e psiquiatria, se constituiu em ciência reconhecida, integrando o sistema da saúde pública. Ocupa-se com as experiências interiorizadas das pessoas, com os relacionamentos do “eu” consigo mesmo e seu ambiente social, com o inconsciente e as pulsões do ser humano, com o universo emocional e mental do indivíduo, com as sensações de raiva, luto, entusiasmo, amor e outras.[2] São os fatores que comandam os comportamentos. A psicologia pretende descobrir como funciona o conjunto desses fenômenos na constituição da personalidade. Dirige atenção especial a possíveis desajustes, patologias, distúrbios, entendendo sob terapia a recuperação do equilíbrio emocional, a reconquista da autonomia da pessoa, a superação de experiências traumáticas do passado, em suma a normalização dos relacionamentos pessoais e a renovação da coragem para viver.

 

Como ciência empírica, a psicologia abre mão de pressupostos metafísicos ou religiosos. Trata de realidades antropológicas, denominadas “psíquicas” em distinção das “somáticas”. Aliás, levanta-se aqui uma questão polêmica, ultimamente em fervoroso debate. Até que ponto os fenômenos psíquicos serão nada mais do que resultado de processos fisiológicos? Os materialistas entre os psicólogos e as psicólogas reduzem a “psique” a meras funções cerebrais, portanto, biológicas.[3] Mais esta vez a psicologia corre o risco de ser privada de seu objeto. O que sobraria seria uma psicologia sem “psique”. É pouco provável, porém, que o ataque da neurologia venha abalar os alicerces da tradicional psicologia. Poderá modificar-lhe os métodos, mas não subtrair-lhe a razão de ser. Também a teologia lhe tributa incondicional respeito. É verdade não haver consenso quanto à maneira de a poimênica se relacionar com a psicoterapia. C. Schneider-Harpprecht arrola seis tipos diferentes.[4] E no entanto, prevalece a convicção de ser imprescindível a assessoria psicológica no aconselhamento pastoral para o bom cumprimento do mandato.

 

Se assim é, por que a teologia não transfere de vez os assuntos da alma à ciência que dela trata por obrigação do próprio ofício? Não poderia a psicologia substituir a teologia? Em épocas passadas a teologia não dava espaço à psicologia. Desde S. Freud a tendência se inverteu. Falar em “psique” faz sentido mesmo sob uma perspectiva atéia. Tornou-se questão consensual. Mas por que falar em alma? Aparentemente os dois conceitos não são idênticos. Existe a “psicologia”, sim, mas ninguém fala em “almalogia”. Então, não seria melhor sepultar o vocábulo e esquecer o discurso sobre a alma imortal a ser salva desse antro de pecados em que vivemos? A teologia acha que não. A ocorrência múltipla do termo na Bíblia por si só o proíbe. Que fazer com a afamada palavra de Jesus, por exemplo, que diz: “Que aproveita ao ser humano ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36) Mas há outras razões, pelas quais a teologia julga o termo não só indispensável como também símbolo de uma contribuição essencial a todas as ciências humanas.

 

Para evitar equívocos convém anotar que a teologia passou por um processo de “desplatonização” do conceito.[5] Passaram os tempos em que se concebia a alma em termos do filósofo Platão como fenômeno independente do corpo, ou seja, como um acessório do ser humano, imortal por natureza, uma substância etérea pertencente ao mundo ideal. Percebeu-se a incompatibilidade do ideário grego com o pensamento da Bíblia que não podia fragmentar o ser humano em partes distintas e até antagônicas. Via-o como um todo, não como composição de elementos heterogêneos. Na teologia, pois, já não se entende a alma como uma espécie de órgão à parte do corpo e em tensão com ele. Alma designa antes uma dimensão do ser humano, uma qualidade sua, uma maneira de ser. É difícil encontrar na teologia contemporânea um resquício da visão dualista de outrora. O ser humano não tem alma, ele é alma,[6] muito de acordo com a passagem de Gn 2.7, onde se lê que ele passou a ser alma vivente depois de Deus lhe ter soprado nas narinas o fôlego da vida. Por isto mesmo se listava antigamente nas comunidades evangélicas não o número de pessoas, e, sim, de almas. Pessoa e alma eram sinônimos. De qualquer maneira, na teologia se abandonou o discurso dicotômico, substituindo-o por uma visão antropológica “holística”.

 

Isto não impede enxergar no ser humano alguém que “tem” alma. É este o linguajar comum. Alguém me disse certa vez que bancos não têm alma, com o que queria dizer ser inútil esperar sentimento humano do frio calculismo de instituições financeiras. Quem não tem alma, tem a sua humanidade prejudicada. Como alma o ser humano é portador de uma dignidade peculiar, relacionada à sua inconfundível pessoalidade. O ser humano é indivíduo, dotado de consciência, raciocínio, vontade, responsabilidade. Lembrava S. Kierkegaard, teólogo luterano do século XIX na Dinamarca que, caso não fôssemos espírito (ele também poderia ter dito “alma”), seríamos incapazes de angústia, desespero, pecado e fé. Portanto, a alma nos distingue como seres humanos, e mesmo que se atribua alma também a animais, ela não será a mesma. O animal não é capaz de fé nem comete pecado. Ao mesmo tempo se deve inferir que alma é o elo que conecta o ser humano com Deus. Conforme E. Drewermann, influente teólogo católico na atualidade, o termo “alma” articula um mistério, uma esfera sagrada a ser protegida, um sopro do infinito no ser humano.[7] E com efeito, sem alma, o ser humano está ameaçado a ver-se reduzido a simples mecanismo orgânico ou mesmo psíquico sem esteio sustentador de sua dignidade. Por todas essas razões o termo alma é fundamental para uma antropologia que se pretende humana.[8]Antes de prosseguir devo incluir duas observações que julgo importantes:

 

1.      Além da dicotomia de “corpo e alma” encontramos na Bíblia também a “trictomia” de “corpo, alma e espírito” (cf 1 Ts 5.23). A diferença é pouca. A filosofia clássica grega privilegiava a dicotomia, incorporando o espírito nas potências da alma. Já o helenismo posterior preferia a tricotomia, separando também entre alma e espírito. Distinguia assim entre a dimensão intelectual e emocional além da parte física e corporal do ser humano. A emancipação do espírito não conseguiu fazer esquecer sua proximidade à alma. Em termos teológicos espírito e alma perfazem uma junta inseparável.

 

2.      Se a alma já não deve ser imaginada como componente autônomo do corpo, e, sim, como dimensão do ser humano, parece tornar-se impossível a fala em sua imortalidade. De fato, a referida desplatonização favoreceu a concepção da morte integral. No fim da vida, assim se asseverou, a alma sucumbiria juntamente com o corpo, aguardando também ela a ressurreição. Mas como entender, sob tais condições, a continuidade entre o velho e o novo ser humano, entre o corpo físico e o espiritual, entre a pessoa morta e ressuscitada? Ora, justamente quando se concebe a alma em termos de pessoa e não de uma substância, deve-se afirmar que a morte não é capaz de devorar o ser humano por completo. Seu nome, sua pessoa, seu ser resistem à aniquilação e estão guardadas na memória de Deus. Assim como na linguagem da computação, salvar é sinônimo de “arquivar”, assim a “alma” permanece no arquivo, até Deus a chamar de novo para ressuscitá-la como novo corpo. Ela não possui a imortalidade inerente a si mesma. É preciso que seja dela revestida (1 Co 15.54). Se não ressuscitada permanecerá na morte. Mas como alma, o ser humano tem a promessa de ver a perfeição e de ter cumprido seus justos anseios na definitiva comunhão com Deus.

 

Voltando à questão da alma, constatamos ser o termo, a despeito da variedade de suas conotações, expressão da singular nobreza do ser humano. Implica a afirmação de sua dignidade, inviolabilidade, de sua vocação para parceiro responsável de Deus. Negando-se a alma ao ser humano, o que dele sobra pouco vai distinguir-se de um autômato, de uma máquina, de uma coisa, embora complexa. Afirmamos, pois, a alma como premissa de uma antropologia que mereça o predicado “humanista”. Eis o primeiro serviço da teologia. Pede prestação de contas das ciências humanas com respeito às antropologias subjacentes a seu labor. Qual a visão de ser humano que lhes dá rumo e define os objetivos? Toda ciência repousa sobre pressupostos filosóficos a não ser que se degrade a mera tecnologia, isto é à aplicação mecânica de um receituário elaborado em outra oficina. Assim também a psicologia. Como ciência trabalha com uma “antropovisão” mesmo que implícita. Caso contrário não passará de psicotecnologia. A teologia pergunta pela relevância que a alma humana tem para a psicologia?

 

Simultaneamente ela ajuda a prevenir que a psicanálise, respectivamente a “psicologia experimental” acabe monopolizando a antropologia. Isto acontece sempre que uma ciência se arroga o direito de fazer da sua percepção da realidade a única legítima e possível. Também a teologia está exposta a este perigo. Ela não tem o direito de reivindicar seja a sua visão a chave para o segredo da pessoa humana. A verdade teológica é uma ao lado de outras, todas essenciais para garantir uma visão mais ou menos integral do complexo fenômeno humano. Algo análogo vale para as demais disciplinas antropológicas. É este o objetivo da interdisciplinaridade: Pretende conjugar os saberes na tentativa de evitar parcialidades e unilateralidades. A verdade, dizia o filósofo G. W. F. Hegel, é o todo.

 

É o direito e mesmo o dever da psicologia proceder à análise crítica da religião e desafiar a teologia.[9] Existem formas neuróticas de religiosidade a serem distinguidas de fé autêntica. Religião é um fenômeno ambíguo capaz de causar sérios danos tanto ao indivíduo quanto ao corpo da sociedade. É tarefa legítima da psicologia identificar patologias religiosas e alertar a teologia a esse respeito. Está comprovado que fé possui força terapêutica. Parece ser até mesmo um dos ingredientes indispensáveis da saúde humana. E, no entanto, tal veredicto não se aplica a qualquer fé nem a qualquer devoção religiosa. Também neste caso há que se distinguir entre o joio e o trigo. A teologia o faz mediante a distinção entre fé e idolatria, respectivamente superstição. Pois a característica dos ídolos é que conduzem à ruína de quem os adora.  A psicologia terá as suas próprias categorias para identificar o prejuízo de uma fé falsa, vitimada por fanatismo, cegueira e obsessão. Ademais sabe-se que uma educação religiosa repressiva, ameaçando com castigos infernais e a onipresença de um Deus tirano, tem efeitos altamente perversos. A psicologia, para denunciá-los, nem precisa invadir terreno religioso. Basta o diagnóstico dos estragos causados nas pessoas para o respectivo laudo de sanidade, respectivamente enfermidade psíquica.

 

Inversamente a teologia tem um interesse em manter a psicologia no chão das realidades e protegê-la contra a violação de fronteiras.[10] Cabe ao ser humano o reconhecimento dos próprios limites como medida preventiva contra a presunção, a ilusão e o conseqüente desengano. Pela mesma razão, modéstia desde sempre tem sido a premissa de verdadeira parceria, de intercâmbio de dons, de comunhão humana. Quem assume uma posição de monopólio, absoluta, infalível, torna-se incapaz para o diálogo. Nisto as ciências não se excluem, entre elas, como eu já disse, a teologia. Mas também a psicologia não é onisciente. Precisa de parcerias para não errar. Para tanto apresento três exemplos que, finalizando, coloco em discussão.

 

1.      Há pouco tempo li uma frase que se me gravou na memória. Dizia: “O consolo vem do céu, de seres humanos pode-se esperar tão somente assessoria.” Isto significa, nem teologia nem psicologia são capazes de produzir consolo real em momentos de dor e desespero. O consolo ao alcance de seres humanos sempre será fraco. Em última instância, consolar é privilégio divino. Somente Deus tem recursos para vencer a barreira da morte e oferecer um início radicalmente novo. Isto não desvaloriza a assessoria psicológica nem a teológica. Consolo humano é importante, sim. Mas por vezes não nos resta, senão o silêncio, para não dizer a perplexidade. Diante dos golpes sofridos por Jó, seus amigos queriam detectar nele algum pecado, que teria explicado o infortúnio. Não conseguiram convencer. Num de seus gestos, porém, estes amigos são exemplares. Diante da tragédia de Jó, sentaram com ele sete dias e sete noites, e nenhum deles falou uma só palavra. Há situações em que o silêncio é mais confortante do que o mais empático discurso. Como profissionais somos tão somente mediadores de ajuda, assim como também o médico o é. Também ele não cura. Sua atividade se limita à facilitação do processo terapêutico. No mais nada pode fazer. Pois, em última análise, a cura provém de Deus. Assim sendo, seria trágico ver em Deus nada mais do que uma hipótese supérflua. Se a existência de Deus for negada, o próprio ser humano deverá substituí-lo, entrar na brecha, salvar o ser humano. Deve, ele mesmo, curar e providenciar consolo nas aflições da vida, uma pretensão a que o fracasso está inerente. Assim como não podemos produzir fé em outras pessoas, assim também podemos consolar apenas em parte. Fundamental é remeter às fontes de fé, às vertentes do consolo, à origem da esperança e recomendar o seu uso. Faz parte da assessoria que nos é devida.

 

2.      Muitas pessoas sofrem sob complexos de culpa. Não me refiro às formas patológicas que sentimentos de culpa podem adquirir e para cujo diagnóstico a ajuda da psicologia é fundamental. Penso em culpa real, não imaginada. A consciência da mesma costuma agravar-se no final da vida quando se torna patente já não haver possibilidades de reparação e que “minha” biografia se torna definitiva. O ser humano, desde que não acometido de total frieza emocional, sofre sob as suas omissões, as decisões errôneas, as injustiças cometidas, as feridas que provocou, as chances que perdeu, o mal que cometeu. Já não há o que corrigir nem como conseguir o perdão das pessoas implicadas. Como diz o “Pai Nosso”, somos pessoas necessitadas do perdão de nossas dívidas. Seria trágico se culpa fosse reduzida a um mero desajuste psíquico, a uma doença a ser curada, uma idéia a ser esquecida. É freqüente em nossos dias, “desculpar” as pessoas atribuindo a responsabilidade a terceiros, a circunstâncias adversas, a estruturas e mesmo forças demoníacas. De fato, o mundo moderno se tornou complexo. Diminuiu a participação do indivíduo nas decisões globais e a restringiu à esfera privada. É um fenômeno que exige um estudo à parte. De qualquer maneira, se pecado é dívida com relação a Deus e ao próximo como Jesus o ensinou, ele acompanha a trajetória das pessoas. Ora, “dívida” não é enfermidade. É compromisso assumido e não cumprido. Deve ser saldado ou perdoado. Outra solução não existe. Em outros termos, culpa não necessita de terapia, e, sim, de perdão. Já que nossa dívida costuma ultrapassar os recursos de indenização, não temos possibilidade senão a de confessar o nosso pecado e rogar a Deus queira perdoá-lo. Novamente a invocação de Deus é essencial. Ainda que o perdão de Deus não dispense da busca do perdão por parte das pessoas a nosso lado, ele faz o que para seres humanos é “impossível”. Restitui a dignidade do pecador, julga sem condenar, absolve de inadimplência perante o criador e a criatura. Se Deus perdoou, não cabe também ao ser humano perdoar? Culpa é um fenômeno antropológico, sim. Ao mesmo tempo, porém, possui dimensões nitidamente teológicas.

 

3.      Pessoas em situação de crise procuram reorientação. Que devo fazer? Desconheço quantas vezes se ouve tal pergunta nos consultórios psicológicos, seja em termos explícitos ou implícitos. É claro que psicologia não deve ser confundida com doutrinação moral. Não tem a permissão para impor aos pacientes determinados valores e comportamentos. Mesmo assim pergunto, se a psicologia consegue manter uma postura “amoral”, acima dos imperativos éticos. Talvez se diga, que a própria pessoa consultante deverá descobrir o conveniente e o eticamente exigido. Isto, porém, pressupõe uma educação que lhe tenha fornecido os parâmetros de conduta socialmente aceitável. Mas como proceder, se isto não foi o caso? Em tempos pluralistas, os padrões éticos começam a vacilar e tornar-se aleatórios. Colabora, ainda, o subjetivismo da pós-modernidade que entrega as regras de jogo a comandar a sociedade ao arbítrio individual. Daí porque ética se constitui num dos maiores desafios da atualidade. O reclamo por ética na política ou na mídia é disto apenas um sintoma. Porventura, poderá a psicologia pretender neutralidade ética para a sua teoria e prática? As tradicionais fontes da ética têm sido a filosofia e a religião, além da sabedoria popular e erudita. Confirmou-se ser a ciência inapta para estabelecer normas de conduta. Ultrapassa suas competências. Pois ética se estriba em valores. Deve conceituar, não apenas analisar. Consequentemente uma “ética psicológica” é ficção. Então qual será o “código ético” com o qual a psicologia, respectivamente os psicólogos e as psicólogas se comprometem?

 

Vou interromper. As reflexões que tive o privilégio de lhes apresentar não esgotam o assunto. O diálogo entre psicologia e teologia abarca outras empolgantes questões, prometendo enriquecer ambas as disciplinas. Espero que o intercâmbio continue em outras oportunidades e em muitos níveis. Enquanto cristãos, certamente vamos encontrar numerosos consensos, além de perguntas críticas de parte à parte que prometem aprofundar os saberes. Isto não por curiosidade puramente teórica, e, sim, por interesses práticos, sempre a serviço do bem das pessoas a que nos propomos servir.

 

 

Canela, 28 de abril de 2007

 


[1] Lothar C. HOCH. Psicologia a Serviço da libertação. Possibilidades e limites da psocologia na pastoral de aconselhamento. Estudos Teológicos, Ano 25, São Leopoldo : Escola Superior de Teologia, 1985/3, p 249-269

[2] Hubert FINDL. Über die Grenze. Von der Seele reden – im christlichen Glaubven und in der Psychotherapie. Zeitzeichen. Evangelische Kommentare zu Religion und Gesellschaft. Jg. 7, 2006/12, p 33-35

[3] Antonia LOICK. Seele, wo bist du? Die Hirnforschung und das Ende der dualistischen Auffassung der Seele. Zeitzeichen, ibd., p 36-38

[4] Christoph SCHNEIDER-HARPPRECHT. Aconselhamento Pastoral. In: Idem (Org.).Teologia Prática no Contexto da América Latina. São Paulo : ASTE / São Leopoldo : Ed. Sinodal, 1998, p 314s

[5] Christof GESTRICH. Was hülfe es dem Menschen. Zur Wiederherstellung der theologischen Rede von der Seele. Zeitzeichen, op.cit. p 26-29

[6] Com relação ao uso da terminologia antropológica no Novo Testamento continua instrutivo Rudolf BULTMANN. Teologia do Novo Testamento. Tradução de IlsonKayser, revisão de Nélio Schneider. São Paulo : Editora Teológica, 2004, p 247s

[7] Em entrevista publicada em Zeitzeichen. Op. Cit., p 39-42

[8] Remetemos entre outras a Reimund BLÜHM. Grundlegung der Seelsorge. In: Handbuch der Seelsorge. Berlin : Ev. Verlagsanstalt, 1983, p 29s

[9] A própria exegese da Bíblia pode auferir lucro pelo recurso à psicologia. Veja Christoph SCHNEIDER- HARPPRECHT. Psicologia profunda e exegese. Estudos Teológicos. Ano 40, São Leopoldo : Escola Superior de Teologia, 2000/2, p 77-92

[10] A discussão entre teologia e psicanálise começou já com as cartas entre Sigmund Freud e Oskar Pfister como bem mostra Karin Hellen Kepler WONDRACEK. Psicanálise e religião – abismo escancarado ou útil variação? Estudos Teológicos, Ano 39, São Leopoldo : Escola Superior de Teologia, 1999, p 186-191

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