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PODER E SUBJETIVIDADE, por Ageu Heringer Lisboa

Artigos e Notícias

Poder e subjetividade
Congresso CPPC – Brasília, 21-24 abril 2011
Falar de poder remete-nos à origem de todas as coisas. O que existe veio a existir devido à energia ou potência implícita do fato criador. Nas Escrituras Deus é a potência criadora em si, a fonte de toda vida, animada ou inanimada, da matéria inorgânica e da orgânica. Segundo uma compreensão mística e filosófica, Deus é o Absoluto que, se contraindo, possibilitou a emergência do cosmos que segue em contínua expansão.  Uma antiga compreensão do texto de Isaías 14.12-15, que fala sobre o rei da Babilônia e suas ambições desmedidas, entendia que tal personagem  podia ser aplicado a Lúcifer, que ambicionava o trono de Deus, colhendo a desgraça.

No texto de Gênesis 3 temos como que uma reedição da mesma tentação básica da obtenção mágica de um super-poder, ter o conhecimento de tudo,  superando as contingências do humano, e ser como Deus. Na narrativa, obtido o fruto, consumado o desejo, sobrevém outra consciência: estranhamento, vergonha, alienação, esforço próprio, racionalização. O segundo pecado aparece logo; Caim mata o irmão Abel. Quebra da fraternidade. Temos desde sempre o desafio da convivência. Sofremos socialmente com as deficiências relacionais inerentes ao amadurecimento emocional: inveja, raiva, pulsões agressivas que se interpõem à fruição amorosa e cooperativa. O individualismo e subjetivismo contemporâneo revelam a difícil equação da alteridade. Que as relações humanas, em todos os âmbitos, sejam marcadas por relações de poder, poucos duvidam: no casal, dentro das famílias, igrejas, sindicatos, empresas, nas disputas do trânsito. Daí a sempre necessária discussão para a construção ética da sociabilidade.

O desejo de saber e de poder que nos constitui é uma força impulsionadora da história, que atrai a desgraça e a violência quando não limitada pelo princípio da Realidade. Carregamos ou somos movidos pelo Desejo de saber, conhecer, criar, manipular, como vemos nas crianças que desmontam brinquedos querendo-lhes ver como que a alma, o segredo. Assim nasce a Ciência, fruto do desejo e necessidade de sabermos mais e melhor e dominar o mundo. O que tem acontecido para o bem e para o mal.

Thomas Hobbes em seus tratados jurídico-políticos descreve-nos como lobos entre-devoradores, inimigos constantes. Marx capta a luta de classes pela supremacia econômica e domínio do capital; e todos sabemos que o mercado é bárbaro e não faz carinho para ninguém. Darwin nos inscreve, como qualquer animal, na luta pela sobrevivência. O Estado organiza simbolicamente a violência e civiliza um tanto a partilha de espaço e direitos. A psicanálise, Lacan especialmente, pontua a função da Lei, como estruturante da subjetividade. Como registra Freud, um mal-estar nos acompanha na cultura/civilização pois devemos administrar nossa voracidade e conter certos instintos para co-existirmos socialmente. O máximo que conseguimos é uma satisfação insatisfatória. Assim caminhamos como errantes em busca de luz e segurança, nossa cota-parte da marca psíquica de Caim [Gn4.12-16].

Nas Escrituras alguns déspotas absolutistas encarnam o poder patológico, abusivo, a serviço do narcisismo e autoglorificação: Faraó, Nabucodonozor, Herodes, e a trindade satânica, o AntiCristo, a Besta e o Falso Profeta. Foram contrapostos por Moisés, Daniel, João Batista e pelos justos e mártires. Na história política abundam os tiranos individuais ou expressões sistêmicas de massacre dos direitos humanos: Nero, Calígula, Napoleão, Stalin, Pol Pot, Duvalier, Pinochet, e os presentes ditadores nos vários continentes. As explícitas políticas encarnadas por Adolfo Hitler, misturando mitologias, ocultismo e a biologia, manipulando o ressentimento dos alemães pós – I Guerra Geral é o emblemático nazismo, tido por muitos como a mais completa expressão histórica do mal. Hitler cabe perfeitamente como uma encarnação do antiCristo, liderando um sistema que despersonaliza os humanos. Sintomático a respeito foram as marcas numéricas aplicadas a fogo sobre as pessoas despojadas de seus nomes pelos ferreiros nazistas.

Contrapondo-se às bestas-humanas, Frank Lake (Clinical Theology) esquematiza a convivência social segundo a dinâmica  poder – amor. Jesus encarna o poder do amor que se nega ao domínio e exploração do outro: “Eu vim para servir”. Uma autêntica revolução em nossas concepções de como se dar bem na vida.    Viveu como o rei-servo que lava os pés dos humanos, segundo outra racionalidade pois  “o meu reino não é deste mundo”, como dissesse: outra é a Lei do meu reino, é a lei do amor. E faz o convite-desafio:  “Se alguém quer ser meu seguidor, que esqueça seus próprios interesses, esteja pronto  para morrer como eu vou morrer e me acompanhe. Pois quem põe os seus próprios interesses em primeiro lugar nunca terá a vida verdadeira; mas quem esquece a si mesmo por minha causa terá a vida verdadeira. O que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, mas perder a vida verdadeira (psique – alma) e ser destruído?”Lc.9.23-5]. Esta é a metodologia preventiva que Jesus nos propõe para tratarmos e educarmos o Caim que carregamos interiormente, nos livrando do colapso narcisista e que nos prepara para uma vida saudável em comunidade.

Para tanto, uma metanoia, transformação primeira e indispensável para a construção de um mundo habitável, sustentável, pacífico e alegre precisa acontecer na interioriedade mesma do humano, na subjetividade . Temática que foi tratada insistentemente pelos profetas hebreus que denunciavam a perda de identidade do povo que chamado a ser livre, se corrompia com submissão a ídolos, poderes humanos e espirituais.   Simbolicamente Ezequiel fala que Deus fará como que um transplante do coração e da mente, expressões da racionalidade e dos sentimentos, da totalidade psíquica e espiritual, tirando o coração de pedra e colocando um de carne [Ez 11.19].  Noutra passagem temos:  “Eu lhes darei um coração novo e porei em vocês um espírito novo. Tirarei de vocês o coração de pedra, desobediente, e lhes darei um coração bondoso, obediente. Porei o meu Espírito dentro de vocês …” Ez. 36.26].

Promessa que alcança, além da subjetividade individualizante, o campo das relações sociais e da estrutura política. No campo das ciências o Dr. Carlos José Hernández traduz esta exigência ética e espiritual com a proposta de uma epistemologia que contemple a misericórdia . Em síntese, a defesa da vida humana, dos animais, rios e plantas acima dos critérios materialistas de produtividade e eficácia econômica, a  valorização do afeto, da bondade, da partilha. Atitudes que aqui e agora já e aqui cumprem as premissas da Terra Nova, realidade escatológica que emergirá com homens e mulheres livres, justos e fraternos, segundo Cristo.

Ageu Heringer Lisboa  – ageuhl@gmail.com
1.Idéia postas no texto Carlos José Hernández, Sobre el poder y La misericórdia- esboço de conferencia no Congresso do CPPC – Brasilia 2011: “Hasta podríamos decir, que toda la narrativa bíblica es el desarrollo de tema que hemos elegido. Moisés, David y Pablo, intentan elaborar en sus vidas la conflictiva entre el poder y la  misericórdia”.

2. Sobre nova identidade, interessante o simbolismo da pedra branca prometida  por Jesus, marca  de natureza bem pessoal e intima, um novo nome [Ap2.17;3,5,12].

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