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INTERDISCIPLINARIDADE E O PROJETO DE LEI DO ATO MÉDICO, por Adiléa Dianin

Artigos e Notícias

1. CONCEITO DE SAÚDE
Segundo a OMS saúde é um estado de equilíbrio e completo bem-estar físico, mental e social. A partir disso é preciso observar, primeiramente, qual o conceito de saúde está sendo adotado em relação ao Projeto de Lei do Ato Médico.
Hoje o conceito de saúde adotado precisa considerar os aspectos determinantes da vida tais como: fatores sócio-econômicos, alimentação, moradia, meio ambiente, saneamento básico, trabalho, renda, educação, transporte, lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais.
Isso significa olhar para a saúde com um foco multidisciplinar. A concepção de saúde precisa ser ampliada e fugir de modelos que considerem a doença apenas como uma anormalidade de um organismo vivo.

2. CONCEITO DE DOENÇA
A doença é definida como qualquer alteração na saúde, ou seja, no estado de equilibro e completo bem-estar físico, mental e social. 
Com a evolução da sociedade como um todo, o conhecimento sobre o ser humano foi muito ampliado, tornou-se mais acessível criando assim condições mais humanitárias de se buscar uma melhor qualidade de vida, o que implica em mais saúde e menos doença.
Outro fator que contribuiu para que o foco da doença fosse visto com outros olhos foi a segmentação ou a fragmentação do ser humano por várias áreas de conhecimentocom detalhamentos mais aprofundados, o que acabou por fazer emergir asespecializações mais variadas de trato do humano. Foram surgindo outros saberes e a própria formação acadêmica cuidou de alocá-los em formações específicas dentro de Faculdades e Universidades. Basta observarmos nossas legislações relativas à educação. É preciso então resgatar também a evolução histórica das profissões ligadas à saúde humana em seus conhecimentos acumulados e em suas formas de tratar o binômio saúde-doença.
Esta ampliação do conhecimento com a conseqüente especialização ocorreu não só na formação do profissional médico, mas também na formação de outros profissionais vinculados à saúde. Em função desse quadro evolutivo social os conceitos de saúde/doença foram sendo abordados por áreas diversificadas do conhecimento humano, ampliando o leque de abordagens e não se restringindo apenas à biologia.

3. COMO LIDAMOS COM A SAÚDE/DOENÇA
Se observarmos a sociedade brasileira ao longo de sua história constataremos que esta lida com a questão de uma forma muito peculiar; ou seja, foram sendo criadas ao longo dos anos maneiras históricas e culturais de busca da cura, seja através da procura pelas famosas benzedeiras, pela busca dos curandeiros e até mesmo dos raizeiros, milagreiros etc. È preciso avaliar o que está por trás dessas práticas adotadas, sobretudo pelas camadas menos favorecidas da população que nem sempre tem acesso fácil à busca pela saúde e por uma melhor qualidade de vida.

4. POR QUE AINDA ADOTAMOS UM CONCEITO REDUCIONISTA DE SAÚDE?
Se analisarmos as prováveis causas da adoção de tal modelo constataremos que, embora a legislação educativa tenha chamado para si as várias especialidades surgidas pela ampliação dos conhecimentos sobre o homem, a formação acadêmica em seu fazer cotidiano não conseguiu incluir em seus currículos formais o debate sobre a saúde em seus aspectos políticos, sociais e econômicos.
O sujeito que é o portador da doença é muitas vezes abordado como se estivesse à margem desses processos políticos, sociais e econômicos. Via de regra, não acontecem, nos meios acadêmicos e de formação, discussões mais abrangentes sobre saúde, que permitam uma apreensão do processo de adoecimento como parte de um contexto mais amplo, complexo e multi-determinado, fato fundamental para o embasamento de uma prática mais adequada.

5. COMO ATUAMOS HOJE
Normalmente os profissionais de saúde se inserem no trabalho em prol de uma saúde marcada por conceitos reducionistas e pela hierarquização do saber, fato facilmente observável nas estruturas orgânicas de setores de saúde públicos ou privados. Acaba acontecendo uma transposição para a prática diária dos modelos aprendidos num processo de formação que considera como excelentes as fórmulas empresariais de gestão de órgãos e pessoas, muitas vezes importadas de países que nada tem a ver com a realidade genuinamente brasileira. A nossa complexidade política, social e econômica acaba relegada a segundo plano, pois o que importa é a resolutilidade, a rapidez do atendimento que assim é desvalorizado, ou até mesmo a geração de uma cura que chega a ser quase “on line”.
Por outro lado podemos constatar que o acesso fácil às informações via WEB têm criado dificuldades a alguns profissionais de saúde que ainda tentam manter o saber como algo exclusivo e coadjuvante do poder individualizado. Mascaramos a realidade com a criação de equipes, mas será que nosso trabalho tem sido realmente desenvolvido com o espírito de equipe? Sabemos compartilhar espaços e fazeres em nosso cotidiano? E quanto ao saber, nós o dividimos ou escondemos?

6. MEDICINA E SUBJETIVIDADE OU COMO ATUAR EM CONJUNTO
A Medicina ao longo dos anos tem legitimado suas práticas com embasamento na biologia, tornando-se assim uma área do saber que cuida do corpo, das lesões, das doenças, agindo como se fosse possível silenciar as outras dimensões do ser humano, tais como a simbólica, a ética, a política e a social, influentes no processo de adoecimento. A saúde está localizada num corpo que é simbólico, marcado pela linguagem, pelos códigos culturais e não pode ser encarado como uma máquina regida apenas por processos bioquímicos e imunológicos.
Como sou psicóloga, eu não posso deixar de pensar em como a psicologia poderia estar atuando juntamente com a medicina numa soma de esforços em prol do bem-estar de uma pessoa. A psicologia, em relação à questão saúde/doença, tem o papel primordial de trazer à tona os outros aspectos intrínsecos à promoção do bem estar do indivíduo enquanto sujeito de um processo de cura. A psicologia, ressaltando a importância da relação médico-paciente, pode auxiliar o profissional da saúde na identificação do sentido latente dos sintomas, redirecionando assim o olhar médico para a individualidade de cada paciente e para os aspectos dessa relação humana tão complexa.

7. NA TENTATIVA DE CONCLUSÃO
Com a evolução social e a conseqüente ampliação do saber sobre o ser humano, urge que o sujeito adoecido seja focado numa dimensão multifacetada onde sua doença passa a exigir uma atuação interdisciplinar visando não só a cura, mas acima de tudo a qualidade de vida a que todos temos direito.
Nós, enquanto psicólogos, acreditamos na força do diálogo e não estamos fechados a ele, porque sabemos da importância de se deixar de focar a doença como objeto de trabalho e da grandiosidade de se passar a focar o doente, a pessoa , o indivíduo, enquanto sujeito de um processo de adoecimento que precisa ser trabalhado. Acreditamos ainda que é no compartilhar das responsabilidades e na evolução das categorias que hoje atuam em prol da saúde de seus semelhantes que está o segredo da cura. Para tanto é preciso dialogar, aprender a fazer junto, estar aberto a novas descobertas, deixar um pouco de lado o medo do novo. Só assim acreditamos que alcançaremos a superação dos conflitos ora encarados, que buscam na força da lei a imposição de saberes. Acreditamos que este Projeto de Lei tem a intenção de organizar e ordenar a ação médica e não de interferir nas demais áreas que também atuam em prol da saúde e da qualidade de vida.

 

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ADILÉA FREIRE DIANIN
Psicóloga – CRP 04/2620
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