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DO HORROR DO IMPURO AO CONCEITO DE PECADO: A QUESTÃO DA CULPA, por Sérgio de Gouveia Franco

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É comum a crítica de que a religião estimula e se assente sobre o sentimento de culpa. Em particular a fé cristã pode ser atacada como uma fé que neurolize e infantilize a alma humana manipulando a culpa ou o medo. Não vamos negar que personalidades obsessivas possam manifestar os seus sintomas em comunidades cristãs legalistas e moralistas. Mas o ponto mais profundo que o ataque superficial não enxerga é que os sentimentos de culpa tem raízes muito mais profundas na cultura e experiência humanas. É besteira atribuir à religião sua origem. De fato, o que segue procura mostrar que dentro da experiência cristã saudável estes sentimentos dolorosos encontram uma resolução.
Uma pesquisa em textos gregos e hebraicos antigos – para nos limitarmos a extratos fundantes da cultura ocidental, mostra que a noção de mal está sempre presente. Em particular de modo recorrente está a noção de mancha. O resultado da pesquisa do francês Paul Ricoeur é que o sentimento de culpa se apoia sobre um sentimento muito mais antigo: o medo do impuro. Antes que qualquer sentimento de culpa frente a uma divindade apareça, há este sentimento de horror, este sentimento de ser peneirado, de ser contaminado pelo mal. Ou seja o medo de perder algo essencial está já desde sempre. Os rituais de purificação são uma tentativa de eliminar esta possibilidade. É possível pois afirmar que o sentimento de impureza é atávico na cultura ocidental, que o homem se sente sujo e porque sujo tem medo.
O que precisa ser destacado é que o medo da sujeira, que deve ser interpretado como o medo de perder algo muito importante, está associado a um sofrimento forte. Trata-se de um sofrimento moral: quando se sente sujo, o homem espera uma retaliação, uma represália. Uma represália anterior a qualquer idéia de um deus vingador. Há uma cólera anônima. O sofrimento já tem claros aspectos de culpa. Veja então o leitor que a noção de pecado não apareceu e a vida ética já está fundada sobre este sentimento de horror ante a possibilidade de perder a integridade. Uma vez estabelecida a noção de sujeira aparece a idéia de retaliação e o temor da retaliação. O sagrado fica todo contaminado por este sentimento de horror frente a possibilidade de retaliação por uma força aniquiladora.
O que gostaria de destacar, além da antigüidade destes sentimentos, muito anteriores às formações cristãs, é que o conceito de pecado é muito diferente do conceito de mancha. A passagem de conceito de mancha para o conceito de pecado se dá mediante uma referência a um ser divino personalizado. Na confissão de pecados há um claro sentimento de desamparo da parte do pecador, que se sente abandonado pela divindade. Isto mostra que o conceito de pecado está ligado a uma ante Deus. O conceito de pecado pressupõe o conceito prévio de encontro e diálogo com Deus. O pecado é uma experiência posterior de ausência e silencio. Ou por outras palavras, o pecado é uma quebra de aliança, portanto um conceito que pressupõe o positivo. O pecado não é tanto um rompimento de uma norma, quanto é um rompimento de um relacionamento. Há uma presença que é agredida.
A passagem do conceito de sujeira para o conceito de pecado não elimina o medo e a angústia, mas certamente muda sua qualidade. O medo aparece agora dentro do contexto da relação do homem com Deus. O terror expressa a situação do homem pecador ante Deus. A cólera não é que Deus é mau, mas sim que ele rejeita o pecado humano. Toda a denúncia profética do pecado, mostra também que o pecado não destrói a aliança. Não se trata de uma vingança de um tabu quebrado, nem a volta a uma caos primitivo. O mesmo profeta que anuncia a catástrofe do dia do Senhor contra os pecadores, anuncia a libertação. Dentro da cólera contra o pecado se encontra o amor de Deus pelo pecador. Então, podemos dizer que a partir do conceito de pecado, a angústia humana é percebida dentro de um quadro de referência pessoal. Não há uma angústia sartreana de total solidão e ausência de sentido. O medo, a angústia, a culpa tem sentido e solução. Para o cristão, a peça central desta solução é a pessoa de Jesus Cristo.

 

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