Psicólogos sabem lidar com a religiosidade dos pacientes?
Nos começos da minha atividade clínica, recebi uma paciente de origem espírita. Por vezes, escutava ruídos e pensava ver vultos, o que lhe causava angústia. Recordava a mediunidade dos pais e ficava em dúvida se esse também seria o seu caso ou se estava ficando doente. Combinamos o próximo horário… mas a paciente não retornou.
Hoje percebo que não tive condições de entender seu sofrimento. Dentro de mim, eu oscilava entre os antigos manuais de doenças psiquiátricas e os preconceitos de minha formação protestante em relação à religião dela. Ela pode ter captado essa dessintonia.
Tempos depois, recebi outra paciente com questões religiosas, de uma igreja pentecostal. Contou, emocionada, sua experiência do batismo do Espírito Santo: nunca havia se sentido tão amada. Percebi que ela me observava para ver se eu compreendia o valor das experiências carismáticas. Disse que o dom de falar em línguas a livrou de pensamentos repetitivos —o que chamamos, em psicologia, de pensamentos obsessivos.
O que aconteceu desta vez? Senti que tinha mais condições de acolher, sem enquadrar de início. A paciente seguiu na terapia; juntas, fizemos um percurso de tratamento. Conseguíamos conversar na mesma linguagem. Pouco a pouco, ela conseguiu discernir o que era de sua responsabilidade modificar e o que poderia esperar pela fé.
Escrevi nesta Folha sobre o silenciamento, nos cursos de psicologia, a respeito da religiosidade e da espiritualidade. Eu também teria silenciado minha escuta para a espiritualidade na prática clínica se não tivesse frequentado, desde os tempos de estudante, as atividades do CPPC (Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos). Na origem desse grupo, há 50 anos, psicólogos militantes de esquerda se reuniram com psiquiatras que também sofriam com o silenciamento —e até com a perseguição— de temáticas religiosas nos ambientes acadêmicos.
Sob a metáfora de “corpo”, significando diferentes abordagens teóricas e posições políticas, psicólogos e psiquiatras construíram um fórum permanente de estudos da relação entre espiritualidade e saúde mental, incluindo pesquisadores nacionais e internacionais. Lá aprendi a escutar as diferentes expressões religiosas da população brasileira e a ajudar as pessoas a viverem sua fé de forma menos contaminada por conflitos psíquicos.
Por vezes, o grupo foi acusado de praticar a contestada “psicologia cristã”. Este não é o caso: não são as teorias que ganham revestimento religioso; são os profissionais que trazem, em sua identidade, diferentes confissões de fé (cristã, no nosso caso, mas poderia ser islâmica, espírita, de umbanda etc.). Assim, aprendemos a respeitar uns aos outros em nossas diferenças e a agir de modo ético e mais competente na escuta dos pacientes, sem julgamento ou indução.
Foi no CPPC que ouvi falar do pastor Oskar Pfister, que se tornou amigo e discípulo de Freud. Foi a ele que Freud escreveu: “o belo na religião não pertence à psicanálise” (“Cartas entre Freud e Pfister”, editora Ultimato). Por decorrência, o belo será acolhido, e apenas “o feio” e deturpado será tratado. Para ter esse discernimento, é preciso romper silenciamentos e conhecer, com respeito.